Estarão os bombeiros que combatem incêndios florestais imunes à COVID-19?

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Daniel Rocha

Ao longo deste meses em que temos sido bombardeados e completamente expostos a notícias catastrofistas ou notícias pequenas e pouco esclarecedoras (naquela estratégia infalível de nada acrescentar para além do medo) sobre a COVID-19, muito pouco se tem falado sobre esta doença moderna e a forma como ela se pode propagar nos operacionais que combatem incêndios florestais.

Já sabemos, todos os que estão ou estiveram envolvidos neste combate anual e sempre repetitivo, que pouco ou nenhum interesse terá para os responsáveis políticos nacionais a saúde dos seus operacionais, sendo cada vez mais clara a a noção de que todos eles são apenas “carne para canhão”.

No contexto actual desta pandemia talvez pudesse existir algo mais concreto e mais eficaz do que as palavras de Patrícia Gaspar, sublinhe-se que a considero muito capaz e preocupada, que mencionavam a existência de um plano de contingência naquilo que diz respeito aos operacionais que estão envolvidos no combate a incêndio florestais. Há distanciamento? Se houver muitas frentes no incêndio, não tenho dúvidas. A alimentação é realizada em diferentes locais? Completamente, pois os operacionais alimentam-se, regra geral, em pleno Teatro de Operações (TO). Os homens e mulheres envolvidos no combate têm feito testes à COVID? Não, mas talvez no final da época alguém se lembre. Nos quartéis há os devidos cuidados e o cuidado para não criar surtos? Não em todos.

Como ainda hoje foi anunciado, 88 militares portugueses na República Centro Africana estão infectados por esta doença que a todos nos perturba. As semelhanças do “modus operandi” daquela força com os vários quartéis de bombeiros ou com as bases de todas as entidades (Força Especial de Proteção Civil, Unidade de Emergência de Proteção e Socorro, Sapadores Florestais, entre outros) que atuam nas múltiplas ocorrências que temos tido são demasiado evidentes e, pasmemo-nos, parece que ninguém se preocupa com isto. Estarão os ajuntamentos em incêndios florestais, bem visíveis durante a cobertura televisiva, isentos de propagação do vírus? Ou daqui a uns tempos logo se vê?

Se isto nos tem preocupado (a nós no Portal Bombeiros.pt) e tem sido motivo de várias reflexões internas, as entidades que representam o setor, e falo principalmente da Liga dos Bombeiros Portugueses, estão mudas e à espera que apareçam casos nos corpos de bombeiros para depois gritar em voz alta que “ninguém se preocupa com os bombeiros”. A velha e relha estratégia garante lugar em entrevistas televisivas e fotografias nos jornais, mas não evita que “a carne para canhão” seja e saia, mais uma vez, prejudicada e diminuída ao nível dos cuidados que possa não ter tido. É que, custa-me andar sempre a bater na mesma tecla, para ser o “representante dos bombeiros” não basta aparecer quando tudo arde, mas sim quando há oportunidade para nada arder.

No meio disto tudo, e para concluir, fica a pergunta: depois de o Estado estar servido e os incêndios apagados é que os bombeiros e todos os outros operacionais têm de ter regras apertadas para não propagar a COVID19?

 

Daniel Rocha

 

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Daniel Rocha

Daniel Rocha

Nasceu na Guarda. Para além da vida de professor, dedica-se a muitas outras actividades. A sua ligação e gosto pelo mundo da imprensa levaram-no a ser colaborador da Rádio Altitude (Guarda) e do jornal Notícias de Gouveia (Gouveia).