E DEPOIS DE ABRIL???

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josé brásDesde há muito que a expressão “ninguém é profeta na sua terra” entrou na lista das locuções proverbiais portuguesas. Pronunciado desta forma, o profeta, aquele que visiona o advir ou o que antecipa o futuro bem pode “pregar noutra freguesia” porque aqueles que o ouvem na sua não lhe darão crédito. Vem esta reflexão “à baila” por este profeta estar frequentemente presente na vida de cada um de nós, como se fôssemos o alter-ego de uma qualquer sibila que proclama as mais ousadas profecias.

Abril é, para este profeta, um mês pródigo para vaticínios multifacetados, senão vejamos: as “águas mil” nem sempre ocorrem com a frequência desejada e, se “a natureza ri”, logo se augura uma época estival seca, demasiadamente enxuta para se aguentar; mas se ele for “frio e molhado”, o profeta rejubila pelo celeiro cheio e pelo gado farto. As predições são mais que muitas, para todos os gostos e feitios, das mais previsíveis às mais eruditas e inauditas, de acordo com a dimensão empírica do ilustrado profeta.

Mas Abril adquiriu, por direito próprio, uma simbologia exclusiva, própria dos grandes palcos onde contracenam incontáveis profetas, videntes cada vez mais descrentes nesse Abril que muito prometeu e pouco cumpriu. A Esperança num Abril renovado, livre e ousado, responsável e justo ainda pulsa nas veias de cada um dos profetas que esperam futilmente pela chegada de um qualquer D. Sebastião, quer venha ou não.

Depois de Abril, nos anos quentes de sonhos e devaneios, os profetas aguardaram sempre mais e melhor, acreditando num Destino promissor, carregado de mudanças altruístas. Hoje, depois de Abril, o profeta antecipa aquilo que todos pensam, aquilo que todos têm certeza! As mudanças necessárias, por variadíssimos motivos, nem sequer se realizaram ou, se colocadas no terreno, não surtiram o efeito desejado.

Enquanto profeta popular, com enraizado saber na experiência feita, vaticino o eterno “dejá vu”, novamente o cenário dantesco de um verão catastrófico, por falta de preparação, pela falta de humildade em aprender com os erros cometidos. Mil perdões se este profeta incorre em falta, mas neste burgo plantado à beira-mar os profetas da desgraça vociferam e são mediaticamente ouvidos em detrimento dos residuais profetas da fortuna que bradam alto sem ser escutados.

Ninguém aprende com os valores de Abril! A mudança é lenta, hostil até. Apenas me resta sair de cena, pregar noutros locais por não conseguir ter crédito na minha terra.

José Brás
(Ex-Comandante, Professor)

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Sérgio Cipriano

Sérgio Cipriano

Natural de Gouveia e licenciado em Comunicação Multimédia pelo Instituto Politécnico da Guarda. Ingressou nos bombeiros com apenas 13 anos de idade e hoje ocupa o cargo de sub-chefe. É um dos fundadores da Associação Amigos BombeirosDistritoGuarda.com e diretor de informação do portal www.bombeiros.pt, orgão reconhecido pela Entidade Reguladora para a Comunicação Social.