Covid que não fique assim

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Rafael Almeida

A uns passos do início do ancestral surto de incêndios florestais, todos temos o foco direcionado na crise epidemiológica asiática e passamos entre os pingos da chuva no debate, não só sobre o confuso, ilógico e pouco claro “regionalismo” do dispositivo de combate aos incêndios florestais, como do apoio financeiro e sustentabilidade da máquina de combate, bem como do papel eclesiástico das Associações Humanitárias de Bombeiros Voluntários (AHBV).

Os poderes locais, pela sua congénere representativa – a Associação Nacional de Municípios -, entendem, por direito consagrado, que a implementação de um subsídio mensal às AHBV é uma perda de soberania e um atentado aos poderes instituídos.

Concordante, pese embora discorde de toda a cosmética que envolve o cerne da questão, urge, então, reformar as AHBV e o seu papel político-social, criando mecanismos de participação, fiscalização e apoio à decisão por parte dos autarcas nacionais. Atribuindo-lhes, consequentemente, responsabilidades diretas sobre factos ocorridos nas suas Áreas de Actuação Própria (AAP), bem como a intervenção financeira justa e equilibrada e o indispensável apoio ao voluntariado, premiando de facto todo o cidadão que abnegadamente e de forma altruísta disponibiliza tempo e conhecimento à sua comunidade, ao seu concelho.

As AHBV seriam incentivadas a manter o seu vector empresarial no transporte de doentes e protocolos no âmbito do Sistema Integrado de Emergência Médica (SIEM), ficando com mais liberdade financeira para o investimento sensato e necessário que dotasse o país de ambulâncias condignas e bem equipadas. Por outro lado, os municípios agregavam as Equipas de Intervenção Permanente (EPI), tantas quantas necessárias para cobrir os riscos por AAP durante os 365 dias do ano, a todas as horas, bem como todas as necessidades no âmbito do DECIF, pois é uma obrigação política o pagamento da fatura da anarquia florestal e agrícola dos últimos 50 anos.

Entendo a cultura mordaz que coabita entre o poder político local e as entidades detentoras dos Corpos de Bombeiros (exceptuam-se alguns casos) até por motivos de interesse político-partidário sobejamente conhecidos, apenas “trocam” brindes nos aniversários e festas de natal com cumprimentos e desejos para o ano que vem.

Esta luta de David contra o Golias é uma ficção e a realidade mostra-nos que, subtilmente, o estado, pelos seus “gabinetes” estratégicos, vai retirar às AHBV e, consequentemente, aos Corpos de Bombeiros (CB) os poucos poderes instituídos. E, se tudo terminar assim, como se adivinha, quero ver como se vai pagar muita dívida de inverno que o verão acaba por amenizar.

 

Rafa Almeida

 

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Daniel Rocha

Daniel Rocha

Nasceu na Guarda. Para além da vida de professor, dedica-se a muitas outras actividades. A sua ligação e gosto pelo mundo da imprensa levaram-no a ser colaborador da Rádio Altitude (Guarda) e do jornal Notícias de Gouveia (Gouveia).