Bombeiros: Mão-de-obra barata e não reconhecida

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IldaSer bombeiro voluntário passa por uma entrega incondicional a uma causa envolta em perigos e riscos para a proteção de bens e socorro de desconhecidos. Os riscos não se resumem apenas aos incêndios e acidentes mas também às doenças às quais os Bombeiros estão expostos.

São muitos os fins-de-semana perdidos e as noites ocupadas… Que bombeiro não ouviu já de um amigo: “Não sei como consegues?! Não sei como tens tempo?! Não tiveste fim de semana?! Não dava para mim!” Eu ouço constantemente…

Esta disponibilidade e entrega a um voluntariado sem dia nem hora marcada requer sempre o prejuízo da vida pessoal. No entanto, o que se perde com a resposta ativa a esta nobre causa é compensado pelo conforto emocional de dever cumprido, enquanto cidadão.

O horário das nossas profissões coincide muitas vezes com ocorrências graves e cuja necessidade de socorro imediato ou de proteção de bens é primordial. São exemplos os grandes incêndios, inundações, acidentes multivítimas e para os quais todos os bombeiros disponíveis são sempre poucos…

Poucas são as entidades patronais que dispensam os seus colaboradores, que são voluntariamente bombeiros, para que durante o seu horário de trabalho possam prestar auxílio e socorro à comunidade.
É sabido que em muitos empregos seria complicada a dispensa dos bombeiros e várias poderiam ser as razões: único colaborador a cumprir horário; a ausência do funcionário implicaria graves prejuízos à entidade patronal; deveria ser o Estado a garantir o socorro à população e não os particulares… Mas também muitos são os empregadores que poderiam dispensar os seus bombeiros, já que por força da Lei o tempo de ausência é restituído às empresas.

Para este tipo de voluntariado e para a maioria dos bombeiros, a solução passa por socorrer o próximo somente fora do horário de trabalho. A época florestal é dos melhores exemplos… Os bombeiros voluntários são a maior força de combate aos incêndios florestais e, infelizmente, o dia-a-dia dos operacionais passa quase sempre por: profissão » combate a incêndios » profissão » combate a incêndios (…), levando muitas vezes a um esgotamento de forças…

Não deveria a proteção de pessoas e bens sobrepor-se a todo o materialismo?!
Não estaremos a tornar-nos seres egoístas e despreocupados com o bem comum?!
Não deveria ser a saúde e o bem-estar de quem presta socorro “por amor ao próximo” alvo das melhores atenções e medidas?!

Os Bombeiros são muitas vezes alvo de comentários cruéis: “Tanto tempo?! Nunca mais chegavam!”… para não referir outros mais gravosos e ofensivos… Não se lembram estas pessoas que os bombeiros portugueses são, maioritariamente, voluntários e que para responder a um pedido socorro necessitam deixar as suas vidas, os seus filhos, a sua família, a sua refeição para se deslocar ao quartel… a qualquer hora e a troco de nada.

Por parte do Estado, não somos menos insultados, pois constituímos, voluntariamente, o maior exército de agentes de proteção civil, fazendo o que o País não consegue fazer pelos seus cidadãos.
E, no fim de contas que reconhecimento nos é dado por parte de quem governa?! Corte nas taxas moderadoras…

Não deveríamos ter prioridade na atribuição de benefícios municipais?
Não deveriam os filhos de bombeiros ser compensados pela ausência dos seus pais, por exemplo com a atribuição de abono escolar?

A “máquina” está a funcionar ao contrário… Os bombeiros e seus representantes estão constantemente a solicitar atenção, respeito, melhores condições para prestar um serviço público e até a atribuição de benefícios, quando na verdade estas deveriam ser prioridades nas medidas estratégicas de quem tem nas suas mãos a responsabilidade do socorro e proteção de bens em Portugal.

Somos voluntários… porque queremos, ninguém nos obrigou… é certo!
Conscientes dos riscos e perigos, dos quais a maioria foge…
Merecemos mais, mas quase sempre um sorriso, um obrigado… reconforta!
Mas afinal o que nos prende?!

Ilda Cadilhe
Comandante dos Bombeiros Voluntários
de Póvoa do Varzim

 




Sobre quem enviou a noticia

Sérgio Cipriano

Sérgio Cipriano

Natural de Gouveia e licenciado em Comunicação Multimédia pelo Instituto Politécnico da Guarda. Ingressou nos bombeiros com apenas 13 anos de idade e hoje ocupa o cargo de sub-chefe. É um dos fundadores da Associação Amigos BombeirosDistritoGuarda.com e diretor de informação do portal www.bombeiros.pt, orgão reconhecido pela Entidade Reguladora para a Comunicação Social.