ANDA TUDO TRO(I)CADO!

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josé brásA tarde de sol intenso, abrasivo, incendiando peles ebúrneas, convidava a banhos de mar! Ao longe, um pregão sorrateiro e castiço enchia o ar com um perfume adocicado: “Bolinha…Bolinha de Berlim! Pssst…Pssst! Já vou, já vou! Vá lá, façam fila! Já só tenho três! Aldrabão!”. A maneira habilidosa e perspicaz escolhida para vender o produto, do qual depende o salário daquele dia, não colocou de lado a honestidade daquele homem, granjeando assim novos compradores.

Este bailado de palavras conduziu-me inevitavelmente o pensamento para o mundo dos soldados da paz. Se, ao menos, aqueles que detêm responsabilidade, influência e visibilidade pública nesta terra à beira-mar plantada fossem honestos e tomassem como sua a causa dos bombeiros, talvez se tornasse mais fácil a convivência salutar entre todos.
Lembram-se da propaganda gratuita em torno do EPI, após as mortes ocorridas no Verão transacto? Que todas as equipas no terreno seriam devidamente equipadas, blá, blá, blá…? As imagens televisivas e dos repórteres fotográficos desmentem aquilo que outros anunciaram com pompa e circunstância. Parece que a delegação de competências nem sempre correu da melhor forma, originando andamentos a múltiplas velocidades, erros crassos nas aquisições e atrasos significativos nas entregas. Alguém foi desonesto em todo o processo!

Já nem falo nos benditos Kamov, cuja novela se arrastou meses a fio, com episódios a roçar o ridículo. Caramba! Afinal, o ponto fraco da tutela é mesmo o planeamento.
Seis meses para reparação e manutenção dos helicópteros (parados desde dezembro do ano transato) seria um período suficiente para demonstrar que “tudo está bem preparado” e que “temos todos os meios necessários” para o combate ao fogo. Seria, na verdade, mas não foi! Andou por aí um novo desonesto, coisa a que já nos habituámos!

A cereja no topo do bolo chegou há bem pouco tempo atrás, sorrateira, pelo estio, quase nem se dava por ela! Por decisão governamental, são eliminados os crimes de fogo posto da lista de prioridades da criminalidade que merece maior atenção.
Indignam-se os bombeiros, revolta-se o povo, atónito com semelhante decisão. O fogo posto é equiparado a um delito menor, caso chocante e indecoroso para todos os que se habituaram, anualmente, a perder pessoas e bens, o património coletivo, riqueza fundamental para o progresso do país.
Um ato vergonhoso para quem governa, um gravíssimo insulto para com os bombeiros e populações. Mais uma vez, a falta de honestidade intelectual é visível: a disparidade entre o que se propagandeia nos canais mediáticos e aquilo que se legisla e se faz cumprir é um atentado à verdadeira democracia que tanto se apregoa.

Não venham por aí acenar com a troika, essa adúltera e mãe de todos os males. Não é o dinheiro que falta mas antes a real incapacidade que a classe política manifesta em ser coerente e honesta. Anda tudo trocado e quem sofre são sempre os mesmos. Apetecia-me dizer até que “eles são honestos: não mentem sem necessidade”.

Deixo-vos com um pensamento de Rui Barbosa (escritor brasileiro do Séc. XIX): “De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto.”

José Brás
(Professor, ex-Comandante)

 




Sobre quem enviou a noticia

Sérgio Cipriano

Sérgio Cipriano

Natural de Gouveia e licenciado em Comunicação Multimédia pelo Instituto Politécnico da Guarda. Ingressou nos bombeiros com apenas 13 anos de idade e hoje ocupa o cargo de sub-chefe. É um dos fundadores da Associação Amigos BombeirosDistritoGuarda.com e diretor de informação do portal www.bombeiros.pt, orgão reconhecido pela Entidade Reguladora para a Comunicação Social.