Elementar, meu caro Costa! Ou será Cabrita?

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Rafael Almeida

Um ex comandante distrital numa comissão parlamentar referiu que “não se aprendeu nada com o incêndio de Pedrogão em 2017”.

 

Sofismas meu caro Watson, ou será, elementar, pergunto eu?
Não poderia estar mais de acordo com a retórica explanada por Sérgio Gomes, ex comandante distrital de Leiria,  na audição parlamentar ainda relativa aos incêndios de 2017, sobre a panóplia de questões levantadas relativamente aos Bombeiros e as suas “não apostas” governativas no âmbito do combate e da prevenção. Antes de estruturar raciocínio, apenas um exercício pleonástico, pois olho para a ampulheta do tempo e, factualmente, existe uma clara idea de que desde o fatídico ano nunca mais houve incêndios, ou então as comissões parlamentares não dão ênfase a problemas, dão ênfase a imagens, a populismos, demagogias e mediatismos.
No entanto, algo não me permite ser um defensor de tamanha importância, preso a pormenores tão essenciais e fundamentais que me fazem colocar no papel de um ministério, ou um governo inteiro com umas certas reticências relativamente à gigante máquina de combate, ao poço de investimento a fundo perdido e às manobras do “engano”, adaptadas pela divisão e combinação, bem ao jeito militar para “sanear” um inimigo que ninguém o viu e nem ninguém sabe quem é.
Uma verdade inabalável é a do obsoletismo da Liga dos Bombeiros Portugueses e suas congéneres, que estão para os corpos de Bombeiros como a igreja estava para a ciência na idade média e, prova disso, é a “guerra aberta” com o presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses facilmente confundivel com um qualquer sindicato associativo. Por lá, deixou de ser o símbolo da fénix que exigia respeito e reconhecimento aos Bombeiros em Portugal e passou a ser apenas um ringue de vaidades de “senhores do poder”, donos supremos dos Comandante dos bombeiros e seus acólitos que se degladiam por manter uma imagem aristocrata, mas que nas oportunidades, cobardemente, abandonam soldados feridos em campo de batalha.
Depois, se por um lado continuamos a verificar promiscuidades entre a política local e as associações humanitárias por “Boys for the jobs” ou por marionetas sensacionalistas, por outro lado existem municípios que, como não possuem regulamentação definida, clara e concreta sobre o envolvimento político nos Corpos de Bombeiros, por uma questão de defesa, de honra, ou até de oposição, recusam participar de forma ativa e imperativa mesmo que isso possa custar o socorro às suas comunidades.
A Verdade palaciana é que as associações são entidades dotadas de plenos direitos e independentes, mas não poderia ser mais errada na sua leitura, pois não existe em país algum uma entidade soberana que seja detentora de um enorme capital financeiro, injetado diretamente do poder central, para “gerir à forma de marceneiro”, mesmo que muito desse capital advenha da permuta de serviços com o SNS no vector empresárial associativo e que em 2020 ainda continua precário, promíscuo, desleal na concorrência e que em nada contribui para o crescimento dos Corpos de Bombeiros, para a sua valorização, para a sua profissionalização e para a sua formação.
Obviamente que ninguém possui uma varinha de condão que transforme a história do lobo mau em frade franciscano, mas começar por olhar para os Corpos de Bomberios com alguma sobriedade é mais do que sensato e peca imenso por tardio.
Se olharmos ao mapa operacional facilmente percebemos que, com a excepção das zonas metropolitanas de Lisboa, Porto e o sazonal Algarve, temos um território florestado, abandonado ao nível agrícola, despovoado e envelhecido. Dessa forma, a aglutinação de massa humana jovem e com estofo académico torna-se cada vez mais difícil até pelas leituras que fazem de um sistema paupérrimo na valorização pessoal e profissional, perdendo-se por aqui uma substancial “lufada de ar fresco” e que em muito podia contribuir para um estruturado desenvolvimento tecnológico e científico.
Aliado a isto temos imensas pequenas “arestas” internas e externas que desgastam ideologias e democracias, resistentes e pouco resilientes em ser objetivas e pragmáticas, quando este meio “grita” precisamente por isso, por uma profunda reflexão para uma profunda reforma.
Quanto ganharia o país em quantidade e em qualidade se o poder central aglutinasse os corpos de bombeiros aos municípios e “obrigasse” os municípios a serem responsáveis pelos seus próprios soldados?
Ficaria assim tão caro um qualquer município do interior do país ter quatro equipas para Postos de Emergência Médica e quatro Equipas de Intervenção Permanente num total de 28 operacionais, cobrindo 24 horas dos 365 dias do ano com um socorro exclusivamente profissional, para não elevar a discussão a uma série de vantagens económicas e financeiras regionais pela fixação e criação de estabilidade a pelo menos a 56 pessoas?
Ficaria assim tão caro dotar as EIPs de ferramentas e conhecimentos necessários para realizar planos preventivos de proximidade, mitigando incêndios de verão que são até então inevitáveis?
Ficaria assim tão caro ao país financiar a máquina de combate aos municípios cuja transparência financeira é sobejamente maior que a de qualquer associação, sabendo de antemão que ao nível da credibilidade, dos concursos para fundos de investimento e da burocracia tudo seria mais fácil?
Ficaria assim tão caro ao país criar uma hierarquia de comando de bombeiros, idêntica ao saudoso SNB e cuja pirâmide termine num ministro com as inerentes responsabilidades sobre o funcionamento, em todo idêntico ao sistema hierárquico das forças de segurança, do instituto nacional de emergência médica ou da própria autoridade nacional de emergência e proteção civil?
Ficaria assim tão caro ao país privatizar o sistema de transporte de doentes não urgente abrindo portas para a criação de empresas, criando dessa forma um aumento das capacidades das associações humanitárias que passavam a ser entidades com fins lucrativos para investimentos em sectores humanitários?
Ficaria assim tão caro ao país discutir soluções com os parceiros e camaradas da GNR, do ministério da agricultura e florestas, da ANEPC para agregar tudo numa pirâmide com esquema definido e sem prejuízo da missão, mas com a primordial objectividade ser assente na prevenção e educação, visibilidade e repressão?
Ficaria assim tão caro aos municípios verem-se obrigados a criar pacotes de incentivo ao voluntariado e métodos didáticos escolares, aproveitando os jovens em idades formativas para moldar personalidades de altruísmo, abnegação e ambiente?
Em 2017 dizia, na ressaca dos incêndios que vão perdurar na memória colectiva, que educação não é despesa é investimento e que profissionalização do sistema é rentabilidade e sustentabilidade.
Será que eu é que estou errado?
Gostava imenso de abrir uma salutar e democrática discussão sobre o assunto pois sou bem conhecedor das minhas limitações em muitas das matérias apresentadas, mas a ideia não é criar uma definição mas sim uma abrangência onde cabem todas as sugestões que possam colocar os bombeiros num patamar justo e equitativo, plenos de direitos e de obrigações que sirvam realmente a sociedade que em muitos milhões de euros de impostos contribui para o actual sistema.
Rafael Almeida
(Título da responsabilidade da redação do Portal Bombeiros.pt)

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Daniel Rocha

Daniel Rocha

Nasceu na Guarda. Para além da vida de professor, dedica-se a muitas outras actividades. A sua ligação e gosto pelo mundo da imprensa levaram-no a ser colaborador da Rádio Altitude (Guarda) e do jornal Notícias de Gouveia (Gouveia).