Enquanto os incêndios se espalham por várias regiões do país, cresce o coro de críticas dirigidas aos bombeiros.
“Não vi aqui nenhum bombeiro, só vi a GNR”, dizem uns.
“Não vejo os bombeiros a entrar, estão parados à beira da estrada enquanto tudo arde”, afirmam outros.
As frases circulam de boca em boca, nas redes sociais e nas televisões, alimentando uma narrativa que, apesar de popular, carece muitas vezes de contexto.
Mas será esta imagem fiel à realidade? Ou estaremos, mais uma vez, a olhar para a superfície de um problema muito mais profundo, com causas operacionais, estruturais e, sobretudo, organizativas?
Será que os bombeiros não actuam porque não querem… ou porque não podem?
O que se vê no terreno não são operacionais desinteressados ou passivos. São homens e mulheres equipados, preparados, com horas de viagem e, muitas vezes, sem descanso, que aguardam instruções. Aguardam missões. Aguardam integração no combate.
Porquê? Porque não há ordens? Porque há excesso de meios e falta de coordenação?
Ou será o sistema demasiado burocrático e centralizado, dificultando a fluidez das decisões?
Enquanto forças como a UEPS (Unidade de Emergência de Proteção e Socorro da GNR) e a FEPC (Força Especial de Proteção Civil) actuam com estruturas de comando próprias e autonomia no terreno, os corpos de bombeiros (que continuam a ser a espinha dorsal do Dispositivo Especial de Combate a Incêndios Rurais) aguardam.
Aguardam por integração, por missão, por alguém que os coloque onde são precisos.
E quando isso não acontece? Ficam na berma da estrada, sujeitos à crítica pública e à frustração operacional.
E há ainda uma verdade incómoda que importa lembrar: os bombeiros não têm horário definido como outras forças. São mantidos no terreno por períodos longos, muitas vezes sem condições dignas para descansar, mal alimentados e exaustos.
Quando alguém os encontra a dormir debaixo de um carro ou encostados a um muro, não é desleixo, é o reflexo de um limite físico atingido.
São operacionais deslocados, longe dos seus quartéis, sem retaguarda logística adequada, obrigados a gerir a exaustão como podem.
Quantas vezes têm de continuar a combater depois de 12, 18 ou até 24 horas sem dormir nem comer em condições?
É legítimo, então, questionar:
Onde está o bloqueio?
Será nas estruturas de comando?
Na forma como as missões são atribuídas?
Na articulação entre forças que ainda parece emperrada?
Ou será na própria cultura do sistema, que há décadas centraliza decisões e confina a iniciativa?
Estaremos perante um problema de comunicação? De organização? Ou de liderança?
O que impede uma equipa operacional, pronta para intervir, de ser empregue de forma eficaz?
Quem define a sua utilidade no Teatro de Operações?
E quem assegura que ninguém é deixado de lado num incêndio que exige tudo de todos?
A crítica fácil aos bombeiros “encostados” é injusta.
Mas mais injusta ainda é a complacência perante um modelo que continua a falhar em momentos cruciais.
Porque este não é um problema novo.
É um problema velho, instalado, resistente à mudança, que todos parecem reconhecer…
… mas poucos têm coragem de enfrentar.

