Daniel Rocha – Projecto Sérgio Rocha

0

daniel_rochaIncêndios Florestais – Um problema de Todos

A chegada do Verão traz o calor, o cheiro a férias e não só. O lado negativo do aumento das temperaturas verifica-se também no aumentar de incêndios florestais em Portugal. Segundo o ministério do ambiente, o ano de 2012 foi onde se verificaram mais ocorrências de incêndios e uma maior área ardida nos últimos dez anos. O trabalho dos bombeiros em Portugal neste período do ano é elevado, uma vez que é nesta altura que ocorrem o maior número de incidências. A zona da Beira Interior, com uma grande área florestal, é um dos pontos do país onde existe um grande número de incêndios florestais.

Preocupados com estas causas, o Projeto Sérgio Rocha veio apelar e sensibilizar para o trabalho que é feito pelos bombeiros na sua missão de proteger os cidadãos. Para honrar um familiar seu, falecido num incêndio florestal, Daniel António Neto Rocha, professor licenciado em Línguas e Literaturas Modernas de 30 anos, decidiu criar a partir do dia 9 de Julho de 2006 este projeto para sensibilizar para causas sociais e formar consciências sobre este problema existente em Portugal: os incêndios Florestais.

 

 Há quanto tempo foi criado o projecto?
O Projecto Sérgio Rocha foi criado há sete anos, em Julho de 2006.

Qual o principal propósito da sua criação?
O grande intuito da sua criação foi honrar a memória da pessoa que dá nome ao Projecto – o Sérgio Rocha, que faleceu no combate a um incêndio florestal. Assim, decidimos criar um projeto/missão que o lembrasse de uma forma positiva e que ajudasse a evitar acidentes idênticos àquele que ele sofreu. A missão dos bombeiros não deve ser ignorada, então é importante sensibilizar a sociedade para este tipo de questões.

Quais as dificuldades encontradas no seu crescimento, a nível de apoios, etc., já que o nosso país atravessa uma crise financeira?
As nossas dificuldades não estão muito relacionadas com questões financeiras, pois não é por não termos dinheiro que as actividades não se fazem (nós fazemos a maior parte das nossas actividades a partir de colaborações que estabelecemos com outras entidades). A nossa grande dificuldade é conseguir que as entidades políticas e as entidades que regem determinados sectores (no caso, as entidades ligadas à Protecção Civil) nos vejam como um projecto sério e rigoroso na ação, ajudando desta forma a dar mais formação aos bombeiros e a todos os homens que se movimentam no meio da segurança pública.

Qual o principal objetivo? Até onde pretendem expandir os parâmetros de apoio?
O objetivos principal é tão ambicioso que se divide em três: mostrar que não é por não haver dinheiro disponível que se deixa de efectuar actividades; fomentar a actividade colaborativa e, assim, oferecer oportunidades de participação em acções de vários níveis a todos; e conjugar vários esforços que conduzam a um bem comum. Nós pretendemos, com as nossas actividades, chegar a todo o país, e penso que já o conseguimos. O passo seguinte é criar uma organização não-governamental ou uma simples associação que nos permita uma integração jurídica nas relações que estabelecemos com as outras entidades, pois para já, somos só um conjunto de pessoas que têm uma atitude positiva e proactiva e queremos ser ainda mais do que isso, sabendo que só o conseguiremos a partir do momento em que ganharmos força associativa.

O impacto do projeto, das suas ideias e os seus eventos tem sido positivo na região?
Sim, a todas as variantes da pergunta. O Projecto Sérgio Rocha tem tido um impacto diferenciador na região, visto que é dos poucos que têm demonstrado que é possível ser inovador e empreendedor no associativismo sem haver interesses instalados. Daí, e acrescento, a dificuldade em obter apoios de que falava acima também resulta da independência que nos mantemos e iremos manter no futuro.

Quais as ideias que ainda estão por concretizar, mas que gostariam de ver concretizadas em breve?
A principal é conseguir organizar uma grande Jornada de Análise ao Incêndio de Famalicão, onde consiga ter representadas todas as famílias dos homens que nesse dia perderam a vida. Se este objectivo fosse cumprido, já estaria satisfeito. Mas gostaria de ter o apoio das entidades do sector para que as colaborações de todos permitissem a realização de um grande colóquio. Depois, e mais difícil, gostava de ainda um dia assistir, por nossa iniciativa, à criação de uma Orquestra na cidade da Guarda, terra de tanta vida para o Sérgio.

Qual o lugar que o Projeto quer ocupar na sociedade local e nacional?
A nossa perspetiva de atuação tem realmente uma componente local e outra de pendor mais nacional, chegando mesmo a ser internacional. Ao nível local (entenda-se o local como regional) queremos ser um elo de ligação de muitas vontades que se distanciam, ou seja, queremos ser um projeto que “força” entendimentos para se construir um bem comum e uma melhoria social. Ao nível nacional e internacional queremos passar, principalmente, uma mensagem de seriedade, competência e desejo de aperfeiçoamento. É nossa intenção, e temos tido algum sucesso nesse campo, capacitar as pessoas que nos visitam com conhecimentos que lhes permitam ser melhores no campo do combate a incêndios mas também mostrar-lhes que, por vezes, uma mudança de atitude no campo pessoal e interpessoal consegue fazer com que tudo seja atingido de forma mais fácil.

O objetivo do Projeto tem sido atingido com sucesso?
Todos os objetivos do Projeto têm sido atingidos com sucesso. Isto parecerá presunção ou qualquer tipo de perspetiva superior, mas não o é. Os nossos objetivos são muito simples e muito práticos e passam por ajudar os outros em múltiplos campos, por conseguir criar uma rede de colaborações entre várias entidades e por conseguir colocar o mal do mundo de hoje (o dinheiro) no plano secundário. Nós temos conseguido fazer algo que muitos consideram impossível de fazer: conseguir que especialistas reputados na área dos incêndios se desloquem a Famalicão para darem formação de forma gratuita. Dado isto, penso que o sucesso é total.

Conseguiram mudar a visão das pessoas sobre os assuntos a que se propõem discutir?
Essa é talvez a maior recompensa que temos hoje. Pensámos a Jornada de Análise ao Incêndio de Famalicão como um local de discussão sadia sobre a problemática dos incêndios florestais e ao longo destes 7 (sete) anos fomos recompensados com a constatação de que quem esteve connosco e connosco partilhou 1 (um) ou mais dias saiu com uma visão diferente daquela com que vinha, percebendo de forma clara que o grande problema não está em saber se alguém errou ou como errou, mas, sim, perceber o que o levou a errar e como podemos evitar errar. Digamos que é uma mudança de paradigma que estamos a tentar fazer: em vez de criticar o que alguém fez pensamos que devemos refletir serenamente sobre essa mesma ação.

Conseguiram criar uma visão mais cuidadosa sobre os incêndios aos cidadãos?
Um dos “erros” que cometemos ao longo destes anos todos foi descurar em parte o contacto com os cidadãos, não fazendo junto das populações a pedagogia e a incitação aos cuidados preventivos que devem ter face aos incêndios. No entanto, é esse o passo seguinte e estamos já, em colaboração com outras entidades que divulgaremos em breve, a preparar uma campanha de sensibilização para o dia 9 de Julho de 2013, exatamente o dia em que cumpre o sétimo aniversário do incêndio de Famalicão.

Este projeto limita-se a atuar na região, ou existe ambição de o tornar maior (nacional).
Nós não gostamos nem temos possibilidades financeiras que nos levem a dar passos maiores do que o tamanho das nossas pernas e, neste momento, temos preferido passos seguros e firmes do que a aventura no desconhecido. Vamos iniciar a passagem da nossa mensagem para fora das nossas fronteiras regionais já este ano e nos próximos anos pensamos conseguir atingir um nível maior de afirmação, mas de forma sustentada e consciente, pois este Projeto é humano e, como tal, é frágil. Posso dizer que estamos a tentar entrar em contacto com a Liga dos Bombeiros Portugueses para conseguirmos criar uma “mochila” que permita o transporte do “fire-shelter” de forma confortável e segura para os bombeiros voluntários. Depois, estamos já a começar a estabelecer contactos com algumas entidades para a realização de um documentário sobre o incêndio de Famalicão. E, por fim, vamos iniciar algumas campanhas de sensibilização que, para já, estão em estudo. Logo, penso que a ambição é grande e nós vamos conseguir trazer esta nossa mensagem ao território nacional e, esse sim é o nosso sonho, torná-lo um exemplo que passe as fronteiras nacionais. Para todas estas realizações, estamos sempre abertos e disponíveis para sermos ajudados por quem quiser e sentir que precisa de ajudar os outros.

Nicolas Reis
(Estudante do curso de Ciências da Comunicação
da Universidade da Beira Interior)

 

Sobre o autor

Sérgio Cipriano

Sérgio Cipriano

Natural de Gouveia e licenciado em Comunicação Multimédia pelo Instituto Politécnico da Guarda. Ingressou nos bombeiros com apenas 13 anos de idade e hoje ocupa o cargo de sub-chefe. É um dos fundadores da Associação Amigos BombeirosDistritoGuarda.com e diretor de informação do portal www.bombeiros.pt, orgão reconhecido pela Entidade Reguladora para a Comunicação Social.