“Esta ‘casa’ não é minha, mas sim nossa” – Entrevista a Normando Oliveira, Comandante dos Bombeiros Voluntários de S. João da Madeira

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madeiraNormando Oliveira nasceu a 22 de junho de 1970 na então maternidade do Hospital Distrital de S. João da Madeira. Tem 46 anos de idade. É casado e pai de três filhos.

A sua ‘carreira’ nos ‘soldados da paz’ sanjoanenses começou cedo, aos 14 anos, depois de ter começado a frequentar a Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de S. João da Madeira juntamente com o seu pai, que era diretor na altura.

À frente do comando do corpo ativo há seis anos, hoje é bombeiro a tempo inteiro, abraçando de corpo e alma esta “missão de salvaguardar pessoas e bens”. Mas antes ainda foi formador na Escola Nacional de Bombeiros e chegou a trabalhar num negócio de família, também com o pai.

Passadas mais de três décadas desde que se alistou nos bombeiros, diz não se arrepender desta sua decisão. Apesar de ter noção que houve algumas coisas que teve de deixar para trás, porque uma corporação “funciona 24 horas sobre 24 horas, durante todo o ano”, a verdade é que Normando Oliveira está nesta vida por “vocação”. E o “gosto” de servir quem dele precisa ninguém lho tira.

Em entrevista ao labor, Normando Oliveira ‘defendeu a sua dama’ – leia-se corporação de bombeiros – como poucos. Há seis anos à frente do corpo ativo, este sanjoanense de gema não poupou elogios aos cerca de 100 homens e mulheres que tem sob seu comando.

A propósito da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de S. João da Madeira, que serve há mais de três décadas, afirmou que a população deve olhar para ela como sendo também sua

Passou quase uma semana desde que começou a “Fase Charlie” de combate aos incêndios prevista na Diretiva Operacional Nacional do Dispositivo Especial de Combate a Incêndios Florestais (DECIF). O que é que isto significa para a sua corporação de bombeiros?

O município de S. João da Madeira está enquadrado numa área predominantemente urbana e industrial e, por isso, o risco de incêndios florestais é reduzido. De qualquer modo, também fazemos parte do DECIF, dando a nossa colaboração noutras zonas do distrito e do resto do país.

Aliás, é um dos princípios dos bombeiros ter sempre espírito de entreajuda e partilha na resolução de situações, tendo em vista a proteção de pessoas, bens e ambiente.

Quer com isso dizer que no território concelhio não têm floresta para proteger?

Não, não temos. Digamos que o nosso mato é residual e que, à partida, não nos dará muito que fazer.

Sendo assim, em termos de incêndios florestais, são chamados a acudir a outras populações que não a de S. João da Madeira?

Sim, é isso.

Em concreto, prestam apoio a quem?

Numa primeira fase, estaremos sempre disponíveis para todos os corpos de bombeiros da periferia. Depois, interviremos em todos os locais que forem necessários e onde as entidades competentes acharem necessária a nossa participação.

Ou seja, independentemente das caraterísticas da zona onde estão inseridos, os bombeiros de S. João da Madeira não estão em ‘modo descanso’ durante a “Fase Charlie”.

É do conhecimento geral que S. João da Madeira sempre foi um corpo de bombeiros dador nesta fase crítica, oferecendo os seus serviços às corporações que deles precisarem. Isto, dentro e fora do distrito.

Estes últimos anos têm sido árduos na época de incêndios florestais?

Sim. Ainda no ano passado, combatemos incêndios florestais numa área desde Monção até à zona de Leiria e ainda Castelo Branco.

Então, sempre que for necessário vocês dizem presente?

Sim. Sempre que temos recursos humanos disponíveis, dentro do enquadramento que é este dispositivo, estamos dispostos a colaborar.

“A Proteção Civil somos todos nós”

Na sua opinião, o que se passa no nosso país para, todos os anos, ‘se bater na mesma tecla’ relativamente ao combate de incêndios florestais?

Olhe, se a memória não me atraiçoa e também pela informação que vou recebendo, dá-me a impressão que Portugal é o único país do planeta que tem consignada uma época de incêndios florestais.

Disse do planeta?

Sim, penso que sim. Em mais lado algum do planeta há uma época de incêndios florestais, definida como nós temos, e também um dispositivo como o que temos.

Continuo a achar que um incêndio florestal deve-se a fatores muito díspares: negligência, falta de conhecimento, falta de informação, etc.. E continuo a achar que a minimização dos incêndios depende de todos nós.

A Proteção Civil somos todos nós! Devemos refletir sobre o que é que, diariamente, fazemos para melhorar a nossa segurança, a nossa forma de estar? A salvaguarda de pessoas e bens passa por cada um de nós, pela nossa capacidade de perceber quais são as nossas responsabilidades em sociedade.

Não acha que o Estado podia fazer mais relativamente a esta matéria?

É claro que podemos pedir que o Estado faça mais do que aquilo que faz. É um facto… Sobretudo, em termos de prevenção, podemos pedir que haja mais intervenção nesta área.

Não obstante isso, temos de ter a noção de que tem de haver uma reflexão muito séria sobre a floresta e o seu enquadramento. Tem de haver um trabalho de cepo, de base, de modo a arranjar formas de minimizar os graves impactos que têm tido os fogos florestais. Acho que a solução passará por isso mesmo.

Sim, vai-se falando que é preciso prevenir. Mas a verdade é que todos os anos regressa o ‘flagelo’ dos fogos florestais. Esse “trabalho de base”, que acabou de referir, está realmente a ser feito?

Se calhar não serei a pessoa mais indicada para responder à pergunta. Hoje falamos nos incêndios florestais, mas também temos de entender que as pessoas abandonaram a agricultura, a exploração das florestas, levando a que zonas antigamente cultivadas e tratadas tivessem passado a mato. E isso é que, muitas vezes, potencia os fogos florestais.

Por isso, é que digo que há um conjunto de fatores associados a toda esta problemática que contribui para este cenário negro. Quem de direito saberá, com certeza, isso também.

Apesar de, então, ser necessário uma outra atenção para com o problema dos fogos florestais, felizmente, no nosso país não se assiste, tal como nos EUA ou na Austrália, à devastação de bens e perda de vidas humanas em grande escala.

Uma perda humana é sempre uma perda humana. É sempre um momento menos bem conseguido. O ideal é que não acontecesse nenhuma situação dessas. Mas a verdade é que esta missão é muito vulnerável a que isso aconteça.

O que acontece nos outros países, com os incêndios florestais, tem a ver com a cultura, com a forma de ser e de estar dos seus povos. Nós, portugueses, ainda somos muito defensores daquilo que é nosso e, por isso, corremos riscos que podiam ser evitados.

A limpeza das áreas florestais, principalmente à volta de zonas urbanas e industriais, devia ser uma prioridade, sendo uma salvaguarda de pessoas e bens e de uma zona de mais fácil combate aos fogos florestais para os bombeiros, que, assim, mais facilmente conseguiriam debelar as situações e evitar danos de maior.

Em todo e qualquer momento, a prevenção parte de cada um de nós! Reforço a ideia de que a Proteção Civil é cada um de nós, é o procedimento que, todos os dias, cada um pode fazer melhor para se proteger.

O Ministério da Administração Interna pôs à disposição mais de 70 milhões de euros para o DECIF. Acha que é suficiente?

Não tenho indicação dos valores que estão, neste momento, envolvidos no dispositivo. Por isso, não lhe posso dizer se é muito ou pouco.

Posso, isso sim, é dizer-lhe que é necessária uma aposta forte na prevenção aos incêndios florestais.

O corpo ativo que comanda é composto por quantos elementos?

Somos cerca de 84 no ativo, mais estes últimos 12 reforços, que entraram recentemente, aquando do encerramento das comemorações do 88.º aniversário da AHBVSJM e do Dia Municipal do Bombeiro.

É um número suficiente face ao número de serviços que prestam?

É um número razoável. Debato-me sempre pelo mesmo: Temos uma atividade que nos obriga a estar 24 horas sobre 24 horas ao serviço da população. Como tal, quanto maior for o efetivo, menor é o desgaste dos efetivos que estão cá em permanência. Se tivermos mais elementos, conseguimos ter mais piquetes diurnos e noturnos, de modo a revezarmo-nos mais e mantermos, sem tanto esforço, a operacionalidade do corpo ativo.

Neste momento, todos os bombeiros passam cá um dia por semana. Temos oito piquetes noturnos, o que quer dizer que cada piquete está quatro vezes por mês ao serviço.

Que idades têm e de onde são os ‘seus’ bombeiros?

Cerca de 60% dos bombeiros vivem na cidade e os restantes vivem nas periferias. As suas idades variam entre os 18 e os 63 anos.

Mas, além dos voluntários, a AHBVSJM também tem uma Equipa de Intervenção Permanente.

Temos uma equipa de profissionais / voluntários. Passo a explicar: Temos um grupo de profissionais que estão incluídos na E.I.P (Equipa de Intervenção Permanente). Ao todo, são 19, que exercem a sua atividade profissional enquanto bombeiros, num período que vai desde as 07h00 às 21h00, e ainda trabalham na central de telecomunicações e nos serviços administrativos e operacionais do corpo de bombeiros.

Mas além disso também pertencem aos quadros de voluntários, fazendo também noites e fins de semana voluntariamente, integrados nos piquetes.

O parque automóvel, de que dispõem neste momento, é suficiente?

Digamos que é o necessário. Mas defendo a sua renovação. Todos os veículos na área do pré-hospitalar têm mais de 10 anos e os da área de combate a incêndios têm 20 e alguns quase 30 anos.

E como vão proceder à sua substituição se não têm dinheiro?

Vamos ter de ter engenho e arte para tentar arranjar dinheiro para renovar o parque automóvel da melhor forma possível.

As atuais instalações servem na perfeição a corporação? É do conhecimento geral que ainda há obras por fazer.

Temos de ter a noção de que as estruturas físicas são um complemento da capacidade e do conhecimento dos recursos humanos. Estes serão sempre a matriz essencial para a prestação de um bom serviço. E essa competência humana temo-la.

Em relação às obras que foram feitas, são uma mais-valia pelo facto de as pessoas agora se sentirem bem num espaço para onde vêm fazer um serviço, que é de missão, saindo, para isso, do conforto dos seus lares.

Mas, então, o que ainda falta fazer não prejudica o desempenho da vossa missão?

Não. O dinheiro não existe, por isso, temos de priorizar as necessidades, salvaguardando sempre a nossa primeira prioridade: salvaguardar pessoas (vidas) e bens. E, de facto, as obras que ainda estão por fazer não nos prejudicam no desempenho da nossa missão.

“Não podemos adiar o socorro para o dia seguinte”

A atual localização do quartel operacional é a mais indicada?

Estar no centro da cidade podia ser mais estratégico. Mas a verdade é que, assim fosse, não teríamos toda esta envolvência, todo este espaço (Escola Nacional de Bombeiros, quartel operacional e toda esta área envolvente), de que agora dispomos.

As localizações dos bombeiros são essenciais, mas mais importante do que isso são os recursos humanos disponíveis permanentemente para a saída ao minuto.

Temos de perceber, de uma vez por todas, que os recursos humanos são fundamentais, que é necessário termos pessoas em permanência no quartel e com a melhor formação possível para estarem prontas a socorrer sempre que o imprevisível aconteça.

É que nunca sabemos o que nos espera, não temos uma agenda. Não podemos adiar o socorro para o dia seguinte, o que nos obriga a ter recursos permanentes. Quando precisamos dos bombeiros, todo o tempo faz uma grande diferença. Um minuto parece uma hora.

Os apoios que têm dado à instituição são suficientes?

Antes de responder, quero tentar fazer perceber qual é a importância de um corpo de bombeiros e para que ele precisa de dinheiro. Porque só assim é que as pessoas entendem porque andamos sempre a dizer que o dinheiro não chega.

Primeiro de tudo, não quero equipamentos para os bombeiros. Quero, antes, equipamentos para que os bombeiros estejam bem equipados para cumprir a sua missão o melhor possível. Isto para dizer que tudo o que temos no nosso quartel (equipamentos, viaturas, etc.) não é nosso. É, antes, da população. Esta casa não é minha, mas sim nossa.

E também quero dizer que quanto melhor estivermos equipados, com certeza, melhor cumpriremos a nossa missão. Por isso, o princípio é sempre o mesmo. Aquilo que queremos não é para nós, mas, antes, para estar ao serviço da população.

Agora, é preciso também fazer outro raciocínio. Quanto é que isto custa? Por exemplo, equiparmos um bombeiro com fardamento de proteção individual, florestal, pré-hospitalar, custa-nos para cima de 3.000 euros.

Não sei se as pessoas acham este valor absurdo ou não. Mas arcarmos com estas despesas sozinhos será de todo quase impossível. Por isso, as instâncias competentes têm de nos ajudar ou, então, arranjar formas de nos ajudar.

Agora tudo isto também tem a ver com a prioridade que damos às coisas.

Mas, volta e meia, não são contemplados com donativos de beneméritos, tal como acontece com outras corporações?

Gostaríamos de ter também essa possibilidade. Mas tal, em S. João da Madeira, não acontece tantas vezes quantas gostaríamos.

Os sanjoanenses deviam ajudar mais?

Eles ajudam. No entanto, faço um desafio: neste momento, temos 3.000 e poucos sócios, em que se calhar 50% são de fora de S. João da Madeira. Ou seja, teremos para aí 1.500 associados sanjoanenses.

Ora, se todos se unissem e quisessem colaborar mais intensamente com a AHBVSJM, se calhar, já o estavam a fazer tornando-se sócios. Já estariam a dar um contributo. Mas, atenção, um sócio tem de ser visto como um processo de ajuda e não de necessidade.

Ele tem de pensar que enquanto puder vai colaborar com a associação humanitária para que esta continue a existir, independentemente de vir a precisar dos serviços dos bombeiros ou não.

Sentem-se apoiados por parte do presidente da câmara?

É como já disse anteriormente: tudo isto tem a ver com as prioridades e, depois, fazer uma reflexão sobre quanto é preciso para termos um corpo de bombeiros técnica e operacionalmente bem preparado para cumprir a sua missão para com a sociedade.

Queremos ser parte integrante da cidade, fazer parte daquilo que é o bem-estar e a segurança da nossa população. Se tivermos esta visão sobre a nossa atividade, todos saímos beneficiados. Por isso, cabe a quem de direito ter ou não essa sensibilidade.

Ao longo destes seis anos, sentiu alguma vez vontade de desistir?

Não. Felizmente, os meus bombeiros têm dado uma resposta positiva àquilo que é a sua missão. E isto, independentemente de um conjunto de legislação, de burocracia, que só serve para atrapalhar e para gastar dinheiro que não temos.

Mas tal não terá a ver com o facto de estarmos sempre a mudar de Governo?

Olhe, acho que neste setor de bombeiros, segurança, emergência, devia ser alinhado um objetivo que tivesse uma duração superior a qualquer mandato. Tem que ser um período mais alargado para que toda esta estrutura possa adaptar-se e pôr-se ao nível do que é necessário fazer.

Por último, quer endereçar alguma mensagem a alguém?

Quero dizer aos sanjoanenses que estamos cá, que podem contar com os seus bombeiros. Os bombeiros estarão cá sempre para dar o seu melhor a servir a população. Contamos com a população, assim como ela pode contar connosco.

Por falar nisso, podemos continuar a contar consigo à frente do comando por mais anos?

Neste momento, estou a cumprir o meu segundo mandato (cada mandato tem cinco anos). O caminho faz-se caminhando. Por isso, tenho feito aquilo que tem ditado a minha consciência. Tento fazer a minha autoavaliação (assim como haverá pessoas exteriores que a façam também) e tentar, todos os dias, estar o mais possível com a consciência tranquila, fazendo o que sei o melhor possível.

1.º Semestre de 2016

Ocorrências

Incêndios urbanos/industriais: 22

Incêndios florestais/rurais: 16

Acidentes de viação: 89

Outras emergências (intoxicações, queda/trauma, agressões, doença súbita, etc.): 1.378

Prevenções: 36

Abertura de portas: 38

Abertura de elevadores: 6

Resgate de animais: 6

Deslocações formação/oficiais: 108

Intervenção quedas de árvores/inundações: 41

Transportes regulares doentes: 2052

Abastecimentos: 14

Números

Bombeiros do quadro ativo: 78 do sexo masculino e 18 do sexo feminino

Bombeiros do quadro de honra: 35

Estagiários/cadetes e infantes: 41

Parque automóvel: 29 veículos

Fonte: Labor/Gisélia Nunes

Sobre o autor

Ana Romaneiro

Ana Romaneiro

Nasceu em Évora onde cresceu e estudou. Desde muito cedo que partilha o gosto pela informática, que, a levou a tirar um curso profissional técnico de Gestão de Sistemas Informáticos, profissão que exerce na atualidade. A sua ligação aos bombeiros surge aos 13 anos ao entrar na fanfarra dos Bombeiros de Évora, onde permaneceu até 2013. Na atualidade integra a corporação os Bombeiros de Reguengos de Monsaraz, no posto de bombeira de 2º.