Viver o dia a dia com a certeza de que fazem a diferença na vida de alguém

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PAULO SPRANGER / GLOBAL IMAGENS

PAULO SPRANGER / GLOBAL IMAGENS

Tripulantes de ambulâncias ou operadores, prestam socorro em situações de doença ou acidentes. Sempre graves para quem telefona, nem sempre para quem ocorre ao local. Acabam de ver reconhecido o direito a uma carreira e a subsídios de desgaste e risco

“Aqui, começam a salvar-se vidas.” Sente quem atende a chamada do 112. “Saber que se faz a diferença na vida de alguém”. “Ajudar os outros”. “Realização pessoal e profissional” “Não é pelo salário”. Acrescenta quem recebe a ordem de socorro da central e agarra na ambulância para acudir à doença ou ao acidente, sempre graves para quem telefona. Mas muitas vezes por solidão, também por desinformação, verifica o técnico do INEM.

“Há muita gente só. Casais de idosos que só se têm um ao outro. Já os conhecemos. Avaliamos a situação e levamos a pessoa para o hospital. O que é que vamos fazer? É a única viagem que fazem em muito tempo. É triste. E quando morre um deles?” Cláudia Valente, 39 anos, técnica de emergência do Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM), descreve uma das particularidades dos bairros lisboetas onde estão sediados, a base 2, junto à Avenida de Roma e que inclui a Baixa. Muitos prédios sem elevador, escadas para subir e gente a carregar em macas.

A população idosa é aquela com que Cláudia mais lida diariamente e que a preocupa, não apenas os que vivem sós mas também “os que estão em lares sem ninguém à noite com conhecimentos de suporte básico de vida”, sem saber o fizer perante uma paragem cardíaca, por exemplo. Mas as crianças afetam todos. “As situações que não esqueço envolvem pediatria”. Nuno Nova, 36 anos, recorda a criança de dois anos que se afogou numa banheira e acabou por morrer. Nem aí recorreu ao apoio do psicólogo do INEM. A sua estratégia é apagar tudo quando deixa o doente no hospital. Nem sempre.

“Não sei se foi por ter sido pai há pouco tempo, marcou-me especialmente uma criança de 13 meses eletrocutada. Conseguimos que recuperasse no local e foi evacuada para o Hospital de Santa Maria [Lisboa], só que tinha grandes lesões. Morreu quatro dias depois”. José Robalo, 40 anos, não cumpriu a regra do Nuno, teve de saber o desfecho. Também porque trabalha num meio pequeno, Ponte de Sor, como tripulante de uma ambulância SIV, de Suporte Imediato de Vida. Viaturas com um enfermeiro e um técnico de emergência e que começaram nos meios rurais por estarem afastados dos hospitais. E assim continuam embora Lisboa já tenha uma, por exemplo.

O desgaste psicológico, o esforço físico para transportar doentes, os locais a que se dirigem e que correm o risco de agressão. “Já tive de sair de um bairro escoltado”, recorda Nuno Nova. “A situação que podia ser mais complicada foi o tiroteio na Ameixoeira [há um mês e que feriu três polícias e duas mulheres], mas quando chegámos já estava controlado pela polícia.” Conta Lígia Matos, 29 anos, que entrou para o INEM em janeiro.

Carreiras e meios disponíveis

Situações que contribuem para que estes profissionais exijam há anos outras condições, nomeadamente uma categoria profissional e subsídios de desgaste rápido e de risco. O que finalmente foi reconhecido. É criada a carreira de técnico de emergência pré-hospitalar para os tripulantes de ambulâncias e operadores dos Centros de Orientação de Doentes Urgentes (CODU), mas estes estão menos entusiasmados com a mudança do que os técnicos de emergência. Está por clarificar a validação dos protocolos e a formação exigida. O futuro é administrarem medicamentos e fazer exames mais complexos como um eletrocardiograma, sempre com a supervisão de um médico. “Quem ganha mais é o utente, vai ter uma rede de cuidados mais abrangentes”, diz José Robalo.

Os técnicos de emergência tripulam em geral uma ambulância SBS (Suporte Básico de Vida), também a conduzem, avaliam a situação do doente, as queixas, as doenças, o que comeu, os medicamentos que toma. E testam os parâmetros vitais: pressão arterial, pulso, frequência respiratória frequência cardíaca, saturação de oxigénio, temperatura e glicemia.

Se o caso é mais grave enviam os dados para o CODU (Lisboa, Porto, Coimbra e Faro) e que acionam novos meios de socorro. É aqui que entram os operadores de telecomunicações de emergência como Carlos Cintra, 50 anos, também coordenador de turno. Têm de avaliar pela discrição os meios a enviar, acalmar quem telefone, descodificar o que diz. “É complicado. Há uma falta de cultura da população, não sei se é por desinvestimento ou desconhecimento. Não percebem que todas as perguntas são para prestar um melhor serviço.”

Carlos já esteve nas equipas de rua, deixou quando subir e descer escadas com uma maca se tornou pesado, além de que fuma. É o que acontece quando se avança na idade, ir para outros departamentos.
Quando a situação é grave aciona a VMER (Viatura Médica de Emergência e Reanimação), que transporta uma equipa médica ao local onde está o doente. Acaba de festejar 25 anos da entrada ao serviço no INEM. Há, ainda, o Helicóptero de Emergência Médica, evacuação de doentes, e a Mota de Emergência Médica, para a cidade.

Carlos Cintra entrou para o INEM após o serviço militar, em 1989. Estava nas transmissões e concorrer a operador de telecomunicações foi natural. “Não sabia onde me vinha meter, só na formação é que percebi realmente o que era. Nunca me arrependi. Sinto-me realizado. Aqui, começam a salvar-se vidas, o que depois é complementado com as equipas de rua. É o que me mantêm e faz com complete 27 anos dia 15. E nem sei trabalhar sem ser por turnos.”

Bombeiros é a estreia da maioria

Cláudia tem um percurso diferente da generalidade dos colegas e que contactam pela primeira vez com os cuidados pré-hospitalares através dos bombeiros. Embora se encontrem muitos outras profissões, como professores, mecânicos, enfermeiros. Era jurista e trabalhava em Direito da Família, área que gostava. Sente que a “advocacia atravessa momentos complicados” e, “por problemas pessoais”, mudou para uma profissão que admirava, também porque a bioética é um tema que gostaria de aprofundar no futuro. As leis já as conheces faltava-lhe a prática em saúde. Concorreu e está no INEM há três anos. “Aos 30 e tal anos descobri a minha vocação. Estava cá há sete meses quando tive uma proposta para um gabinete jurídico e não aceitei. O meu futuro é esta casa, evoluir cá dentro.”

Sente-se “útil e mais preenchida”. E nada paga o orgulho com o que ouve os dois filhos dizerem: “A minha mãe trabalha no INEM.” Mas paga os horários por turnos – e a dificuldade em ter uma vida social com a família e amigos, que trabalham de segunda a sexta , das 09.00 às 17.00. Também não é fácil conciliar com a vida familiar, mas tudo se consegue graças ao bom relacionamento que ficou depois de se divorciar do pai dos filhos.

Nuno Nova é do mesmo curso de Cláudia Valente, entrou em 2013. Eram 4200 candidatos para 100 vagas. Trabalhava no Bombeiros Voluntários de Loures, onde também fazia voluntariado, o que é obrigatório. Ganhava 900 euros mensais, vivia em casa dos pais, com cama e roupa lavada. Passou a receber 750, a pagar renda de casa.

“Foi uma opção de vida, o que nos move é o gosto pela emergência hospitalar. Nos bombeiros até apanhava mais situações emergentes, basta pensar nas autoestradas A8 e A9 que passam no concelho, nos acidentes, mas queria evoluir e dedicar-me a isto a 100%.” Nuno justifica ainda: “Em Lisboa, acaba por haver serviços que na verdade não são de emergência, mas é diferente. Nos bombeiros o trabalho é mais variado, acidentes, incêndios, etc, faz-se um pouco de tudo. Quem gosta da área pré-hospitalar é aqui que pode evoluir.”

Nuno já tripulou uma SIV. “Nasceu nos meios rurais, quando se têm de fazer distâncias muito grandes, o doente tem que ter outro tipo de transporte, mais especializado. Enquanto técnicos perdemos autonomia, há um enfermeiro e é ele que tem a decisão. As situações é que são diferentes.”

Hoje Nuno Nova faz equipa com Lígia Matos, as equipas podem mudar todos os dias. A novata que veio da Lousã e para lá quer regressar. Os colegas dizem-lhe que demorará uns três anos, depende da abertura de concursos. Este ano concorreram 3700 pessoas para 85 vagas, dez para o Norte, dez para o Centro, as restantes para Lisboa. É onde mais lugares, razão pela tantos iniciam a profissão na capital.

Lígia acabou o contrato na Força Aérea, como mecânica e condutora. Também concorreu a guarda prisional, acabando por ficar no INEM. Ganhou-lhe o gosto e vê-se daqui a 20 anos numa SIV em Lousã, onde foi também pertenceu aos bombeiros. Tem a sorte de morar na casa de uma tia e não paga renda. De contrário, teriam de ser 250 euros de aluguer, mais 150 para alimentação, tanto como o combustível, mais telemóvel e outras despesas. Resta pouco ao fim do mês.

A solução é ter duplo emprego como fez José Robalo quando deixou os Bombeiros Voluntários de Idanha-a-Nova para trabalhar no INEM em Lisboa, mas sentia que “estagnava”. “Estava nos bombeiros desde 1991, senti necessidade de procurar um novo mundo, de ter novos projetos”. E também de satisfazer um sonho de criança. “A minha entrada nos bombeiros foi a minha prenda de anos. No dia em que fiz 16 anos [a idade mínima permitida], o meu pai disse que a prenda era a inscrição nos bombeiros. Inscrevi-me logo.”

Duplo emprego entre 2008 e 2013 com duplo emprego: de manhã era técnico de emergência pré-hospitalar numa instituição bancária e à tarde e à noite no INEM. “Foi duro”. Conheceu a mulher, enfermeira no INEM, e acabou por ir para a terra dela, Ponte de Sor, onde diz ter mais qualidade de vida. “Trabalhar em Lisboa é verdadeiramente uma escola, quem está de manhã não para. Em Ponte de Sor somos chamados para diferentes situações, não mais que dois serviços dadas as distâncias, e em todas elas sentimos que podemos fazer a diferença, mas o trabalho é menos duro. E a mentalidade da população é completamente diferente, só telefonam em último caso. E um ambiente mais saudável”.

O ambiente de trabalho entre colegas é que é bom, sobretudo quando se juntam na sala de espera, partilham histórias e comida. E brincam com as situações para descontrair. E dá sempre para fazer trocas, como o Nuno que pode junta os turnos para poder viajar. Ou como a Lígia, a tentar fazer uma troca ir a casa no Dia da Mãe.

Fonte: DN

Sobre o autor

Ana Romaneiro

Ana Romaneiro

Nasceu em Évora onde cresceu e estudou. Desde muito cedo que partilha o gosto pela informática, que, a levou a tirar um curso profissional técnico de Gestão de Sistemas Informáticos, profissão que exerce na atualidade. A sua ligação aos bombeiros surge aos 13 anos ao entrar na fanfarra dos Bombeiros de Évora, onde permaneceu até 2013. Na atualidade integra a corporação os Bombeiros de Reguengos de Monsaraz, no posto de bombeira de 2º.