Mensagem do Comandante António Simões

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O céu ficou vestido de negro, o mesmo tom escuro, carregado e sombrio que vestiu ontem, que veste hoje e vestirá durante muito tempo o coração e alma dos Bombeiros Portugueses.
Rostos imensamente tristes, expressões de cansaço, de impotência perante a tragédia, mas também de uma solidariedade muito forte abalaram os Bombeiros de Coja, da Lousã, do Distrito e do País.
Perante o cenário de vários incêndios florestais, em Arganil e Oliveira do Hospital, em Coimbra, em Condeixa-a-Nova, em Penela, novamente em Arganil e confrontados com tantas adversidades, os Bombeiros, apesar de tudo, souberam estar à altura das suas responsabilidades e mobilizaram-se de uma forma tão voluntária, altruísta e solidária, só possível num sistema organizacional com esta dimensão humanista.
Como não podia deixar de ser, os Bombeiros do distrito estiveram em todos os teatros de operações com todos os meios de que puderam dispôr, partilharam e partilham a mesma dor, a mesma amargura dos Companheiros de Coja, que viram partir uma Jovem de 25 anos e que têm ainda dos dos Seus, um dos Nossos, com prognóstico clinico reservado.
Apesar disso, os Bombeiros têm que continuar a ser iguais a si próprios, a ser sensíveis face aos momentos de aflição vividos pelas pessoas mais desprotegidas e vulneráveis, a lutar como sempre pela salvaguarda das Vidas, dos bens e dos haveres de todos os cidadãos, mas não se podem deixar influenciar por quaisquer pressões mediáticas, pela manutenção das estatísticas da menor área ardida, ou quantas vezes pela pressão da população ou de muitos responsáveis, que não cuidaram da limpeza no tempo que deviam e deixam agora a responsabilidade na mão dos Bombeiros, como se nestas circunstâncias, de múltiplos incêndios, Estes pudessem ter um carro junto a todas e a tantas casas disseminadas pela floresta sem qualquer espaço de proteção.
Face à quase generalizada falta de limpeza e à seca severa que abala o nosso território, o índice de risco de incêndio é cada vez maior, o fogo propaga-se com violência extrema, a população rural fica mais vulnerável e os Bombeiros enfrentam riscos acrescidos.
Há poucos dias, foram os Colegas dos Bombeiros Sapadores de Coimbra, agora os Municipais da Lousã e, com maior gravidade, os Voluntários de Coja. Nada nem ninguém apagará esta tristeza, esta angústia que nos aperta o peito, mas ao menos que a memória desta Companheira, e de todos os que já partiram, nos possa fazer refletir, a todos, aos Bombeiros, aos responsáveis e à população em geral, de que nenhum pinheiro ou eucalipto, ou porventura a mata mais importante, valem o sacrifício da própria vida.

Fonte: Comandante António Simões – Presidente da Federação dos Bombeiros do Distrito de Coimbra

Sobre o autor

  • Flávio BDA

    De tantos comentarios vistos em torno do sofrimento da perda destes NOSSOS BOMBEIROS, dos acidentes do qual resultaram feridos, quer graves quer ligeiros, foi a mensagem mais pura, mais verdadeira e mais sentida que pude ler. Eu sou bombeiros do Destrito de Aveiro, e acredito piamente que estes acontecimentos toca com qualquer Bombeiro, do norte, centro e sul do país, ate mesmo em outras partes do mundo, a perda é sempre uma perda, pois podemos nao ser conhecidos, familiares ou ate amigos, mas existe uma palavra que faz com que sejamos uma só familia, a palavra BOMBEIRO! Nao critico, mas custa-me ver que num momento doloroso, como este, se veja comentarios, culpando o governo, criticando a populaçao, procurando um nome para dizerem “foste tu o culpado!!”
    A vida nao tem preço, mas um pequeno erro, uma pequena distraçao, pode custar bastante caro. Culpados somos todos nós, culpados ate pode ser ninguem, nao é este o sentimento que deve premanecer dentro de nós. Aceito que existe revolta, por se ter perdido um dos nossos, e a maneira que encontro de poder demonstrar esta revolta, ultrapassando esta dor, podendo ao mesmo tempo HOMENAGIA-LOS, é ouvir a sirene, um pedido de socorro, fardando-me, para combater mais um incêndio, socorrendo mais uma pessoa que nos grita por ajuda, dando continuidade ao trabalho de todos os que iniciaram mas pelos diversos motivos tiveram que partir. E so nos resta a nós fazer com que todos os BOMBEIROS que tiveram que partir, para uma ate já, nao sejam esquecidos, mas sim relembrados todos os dias, nos Incendios, nos Acidentes, em qualquer Ocorrencia, mesmo nas nossas lembranças, com orgulho e muita alegria.
    Vida Por Vida, corre diáriamente nas nossas veias no nosso coração, nós sabemos o valor que tiveram e nao existe mais ninguem neste mundo que nao seja bombeiro, com direito de dizer, “eu sei o valor que os bombeiros têm” pois para saber o real valor que esta palavra a sua funçao, teriam que passar por tudo o que nós passamos.
    Bombeiros Voluntarios da Coja, a voces so vos posso transmitir uma enorme FORÇA, o páis está com vosses 😉

    • Bruno Dias

      Grande comentário, um conteúdo com muito significado.
      Somos uma Família, não sei o porque de muitos fazerem conflitos entre bombeiros, as vezes ate mesmo na própria corporação e de um momento para o outro podemos “ir para o outro mundo” juntos e acaba-se tudo, é muito triste!

  • Concordo com vocês dois, mas não deixo de deixar um comentário que, espero, suscite em vós, também, uma reflexão mais profunda do que aquela que estão a fazer aqui. Porque razão é que um alto responsável da Liga dos Bombeiros Portugueses (é assim que eu vejo TODOS os representantes federativos destacados nos distritos) vem apenas lamentar as vidas que se perdem no seu distrito? Porventura o céu fica menos escuro quando isso acontece, por exemplo, e falando de um caso que conheço intimamente e que me queima a pele, em Famalicão da Serra, distrito da Guarda? Ou aquilo que aconteceu no distrito de Leiria? Ou em Castelo Branco? Ou, e infelizmente, o que já aconteceu em TODOS os distritos e regiões de Portugal?
    Infelizmente, não posso deixar de reparar que num momento em que todos deveríamos estar unidos, como os milhares de portugueses de TODAS as cidades do país demonstraram bem no apoio aos camaradas de Coja, há sempre um toque de quinta que não deixa de ser bem vincado por quem não o deveria demonstrar.
    Caro Comandante (como faz questão de frisar) António Simões, tenho imensa pena que para si só contem os homens e mulheres bombeiros do seu distrito porque, e disto tenho quase a certeza absoluta, os homens e mulheres do seu distrito e todos os bombeiros do país soltam lágrimas e choram qualquer camarada bombeiros que caia em qualquer sítio de Portugal. Mas, claro, isto é o que acontece com os comuns mortais, grupo ao qual vocês não devem pertencer!
    Com os melhores cumprimentos,
    Daniel Rocha

    • Bruno Dias

      Tens toda a razão, os bombeiros são sempre divididos, são sempre grupos mas nós bombeiros, somos uma só força, uma só organização de socorro, que andamos todos pelo mesmo…