Século XXI, Equipas e sua liderança!

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calinas_cronicaAproveitando a oportunidade de escrever e publicar neste espaço, vou de certo modo aproveitar um feito recente [conquista do Campeonato Europeu de Futebol] e tentar explicar do porquê do sucesso que o Eng. Fernando Santos teve à frente daquele grupo de indivíduos e de certo modo extrapolar para uma realidade que me é muito familiar e que ainda não interiorizou do que é, e como se processa o comportamento organizacional e como as pessoas sejam elas operários, técnicos, dirigentes intermédios, ou mesmo colaboradores benévolos de Organizações Voluntárias como por exemplo os Bombeiros se gerem.

Todos tem necessidades e expectativas que usam para a se motivar e assim fazer com que a organização tenha sucesso nas vendas, lucros e assim cresça e lhes proporcione estabilidade, ou no caso especifico dos “bombeiros” em que as anteriores premissas não se aplicam, mas que em vez de sucesso nas vendas, se mede por sucesso nas missões que lhes são dadas, que em vez de lucros, se mede em vidas e bens salvos pela sua acção e em vez de crescimento anual vêem o crescimento operacional, o crescimento do reconhecimento daqueles que servem, o crescimento da adesão por parte de jovens que ao verem o anteriormente referido se sentem motivados a aderir à nobre actividade que é ser Bombeiro Voluntário.

Mas voltando ao início, todos certamente se lembram de quando saiu a convocatória do Seleccionador Nacional, o chorrilho de críticas que a mesma esteve sujeita, desde que eram jogadores de segunda linha, jovens, velhos, desconhecidos etc.

Mas na verdade eram aqueles que o Seleccionador achava que estavam mais aptos para levar a cabo a missão que lhe tinha sido dada, “a conquista do Campeonato Europeu” e que ele assumiu publicamente como sendo o seu objectivo e do qual acreditava ser possível com aquela Equipa de 23 Jogadores.

Como também todos sabemos, o percurso não foi fácil e foi efectuado com muitos altos e baixos e com a sempre essencial sorte, no entanto e como sempre se diz a sorte conquista-se com trabalho, organização e com o entrosamento de todos os que fazem parte da Equipa.

Sim! Dos 23 jogadores só dois não foram chamados a dar efectivamente o seu contributo nos jogos disputados, mas certamente que estariam aptos e prontos a o dar caso fosse necessário, ou seja todos, mas todos faziam parte da equipa do Seleccionador e os mesmos sabiam disso, mesmo que só fossem chamados a dar o seu contributo em circunstâncias desfavoráveis ou mesmo por escassos minutos e quando eram chamados davam o que tinham e não tinham pelo objectivo do seu líder, que não era mais que o seu objectivo.

Ganhando um, ganhavam todos!

Para o Seleccionador a equipa teria que ser mais que um conjunto de individualidades e onde uns serviriam para ser meros espectadores de outros, sabendo certamente que uma equipa sem chefes que tenham em mente os objectivos e os levem de um modo muito prático e concreto aos restantes camaradas dificilmente alcançará o sucesso e isso era assumidamente efectuado pelo “capitão” Cristiano Ronaldo.

Mesmo perante a adversidade de terem perdido o seu “capitão” a equipa não deixou de acreditar e de levar a cabo a concretização do objectivo principal, a adversidade tornou-se no aditivo, afinal era o colocar em prática de um velho lema “um por todos, todos por um”.

Também o “capitão” não se esqueceu dos seus e logo que teve condições juntou-se ao seu Seleccionador e em conjunto transmitiu força e animo aos restantes Camaradas, afinal o concretizar do sonho estava “logo ali”, era só necessário mesmo acreditar e um pouco mais de sacrifício.

No fim e perante o sucesso a Equipa que antes fora alvo de críticas, fora todos recebidos como “heróis nacionais”, o Seleccionador que antes tinha sido apelidado de levar uns “amigos”, de ser um “sonhador” e mesmo quando assumiu esse sonho publicamente haver quem o achasse de “arrogante”, perante o sucesso da missão a concretização plena dos objectivos agora é um líder exemplar e que sabe como levar a cabo a sua missão.

Perante estas idiossincrasias lusas, a organização, o estabelecimento de objectivos, a definição de um planeamento detalhado, a gestão criteriosa dos recursos humanos, a valorização do colectivo, o correr riscos, enfim o sucesso, foi algo que foi visto como uma coisa acessória, houve mesmo quem dissesse que eram coisas de Engenheiro, pois talvez o sejam, mas para mim são sinal de competência, integridade e responsabilidade.

Posto isto, perguntar-me-ão, mas todo isto é muito bonito mas onde queres chegar?

Quero com isto dizer que a liderança não é algo abstracto, inato é algo que se conquista com formação, estudo, responsabilidade e acima de tudo honestidade e o que está sempre em causa são pessoas e que essas gostam de ser tratadas como pessoas que são.

E como disse no inicio fazendo a ligação entre o acima descrito e a actividade que me é mais que familiar, eu diria num tom romântico, que me é muito querida, os Bombeiros e quem os dirige, que esta questão da liderança é entendida como “eu sou quem manda e os restantes estão aqui para me servir e para eu me servir”, ou seja o que a maioria dos “lideres” dos Bombeiros vêem à sua frente não são pessoas mas sim objectos de que os mesmos põem e dispõem a seu belo prazer.

Sem objectivos, sem planeamento, sem gestão, sem valorização, sem compromisso, sem comunicação o cenário é aquele que vemos todos os dias, o descrédito, a desmotivação, o abandono…

Mas como sempre não gosto de apontar só a “encruzilhada”, sempre que possível procuro encontrar um caminho, não o caminho, mas aquele que penso ser o caminho mais viável e estruturado para solucionar ou pelo menos chegar ao “destino” de um modo minimamente sério e exequível.

Assim tendo como “pano de fundo” um artigo do CEO e Fundador da Cedro Technologies, Leonardo dos Reis Vilela, vou adaptar o mesmo e “mostrar” como disse anteriormente, um caminho.

Não pretendo com isto dizer que o que vou apontar seja a cura para todos os males, mas certamente que poderão ser medicamentos para algumas doenças e que ajudarão ao restabelecimento do paciente e que depois na posse de todo o seu vigor irá certamente mais facilmente fazer face a antigas e novas maleitas.

Aqui ficam então algumas notas para levar a cabo a árdua caminhada da liderança de um Corpo de Bombeiros e gestão de equipas no século XXI:

A visão do Corpo de Bombeiros precisa ser compartilhada com todos: as pessoas podem contribuir mais se souberem a direcção do CB. A visão compartilhada permite construir um sentido de compromisso colectivo e criar uma imagem de futuro visando estimular o compromisso de todos os envolvidos.

O Corpo de Bombeiros precisa ter uma missão clara: O CB é norteado pela sua missão, que é a razão de ser da organização. A missão deve ser dita de uma forma clara, esclarecer o que o CB pretende ser, aonde quer chegar, qual é a sua área de acção, como vai actuar e qual a posição que deseja ter operacionalmente.

Os melhores Bombeiros são movidos por desafios: um dos principais ingredientes da motivação é o desafio dado. O desafio precisa de ser na medida certa e compatível com as competências do Bombeiro. Ele não pode ser impossível de ser realizado para não gerar frustração, mas também não pode gerar ociosidade. Um Bombeiro acomodado e sem desafios é um operacional desmotivado.

Feedback como ferramenta de valorização: todos os Bombeiros devem ser acompanhados por avaliação de desempenho. Esta avaliação deve ser feita inicialmente entre o Bombeiro e o seu líder imediato, dando oportunidade para que o avaliado conheça os seus pontos fortes e seus pontos a melhorar. Nunca dar feedback negativo (aqui devemos chamar, de pontos a melhorar) em público. Elogie em público, chame a atenção no particular. O líder deve apontar com assertividade os pontos fortes do Bombeiro e os seus pontos a desenvolver. Somente com feedback adequado as PESSOAS se sentirão valorizadas com as competências que têm e saberão exactamente quais os pontos que devem desenvolver.

Ser assertivo é uma habilidade que o líder e o liderado precisam encontrar.

A Psicóloga-Coach, Thais Vilela, define, num excelente artigo sobre assertividade, que a pessoa assertiva decide o que quer, planeia uma forma de conseguir e age. Respeita tanto os próprios direitos como os direitos dos outros. Expõe claramente pensamentos, sentimentos, pedidos de mudanças dos outros, evitando exigências, ameaças e declarações negativas. No entanto, em certas circunstâncias, a pessoa assertiva pode decidir que uma resposta passiva é a melhor (com um chefe insensível), ou que uma resposta agressiva é necessária (com pessoas a quem inúmeras solicitações feitas de maneira educada não foram suficientes). A pessoa assertiva adapta o seu comportamento conforme a situação. Geralmente sente-se satisfeita e é bem vista.

A assertividade é o modo mais eficaz de fazer com que os outros saibam o que se passa consigo mesmo ou o efeito que o comportamento dos outros tem sobre si. Ao se expressar assertivamente, você pode resolver sentimentos desconfortáveis que, de outra maneira, permaneceriam e cresceriam. No entanto, é importante deixar claro que as suas metas não podem ser atingidas em todas as situações, uma vez que é impossível controlar a forma como as pessoas irão responder.

Corpo de Bombeiros (e líder) precisa de entregar resultados: os resultados, o reconhecimento e a operacionalidade são relevantes na motivação da equipa. Sim, as pessoas estão interessadas que o CB tenha sucesso. As pessoas querem ver os seus projectos avançando e sendo bem-sucedidos. Se o CB não gera mais-valias, então não conseguirá no futuro investir no desenvolvimento dos operacionais, ambiente de trabalho e em inovação, e assim o CB poderá ter sérios problemas.

Um ambiente propício ao desenvolvimento de ideias: muitos CB’s reclamam que os seus operacionais não são criativos, mas sem um ambiente propício ao desenvolvimento de inovação e de ideias, então qualquer esforço será em vão. O CB precisa de criar um ambiente propício à geração de inovação e de ideias. Permitir o erro, premiar projectos e possibilitar que os próprios Bombeiros proponham ideias para resolver os problemas do seu dia-a-dia. O CB deve criar programas em que as ideias sejam premiadas quando sugeridas e colocadas em prática resultando numa alavanca de operacionalidade, redução de custos ou optimização de processos.

Os valores do Corpo de Bombeiros são compatíveis com os dos Bombeiros? Aquilo que o Bombeiro considera como importante em termos de desenvolvimento profissional, o CB tem condições para oferecer? Tanto o recrutador como o recruta precisam de se conhecer. É muito comum ocorrerem erros no processo de recrutamento. Se os valores básicos do recruta não “forem similares ou se compatibilizarem” com a liderança ou com o capital estrutural do CB (cultura e valores do CB), então não haverá nada que se possa fazer após a admissão. Portanto, é preciso ficar atento no processo de recrutamento. Os valores da Corpo de Bombeiros precisam de ser compatíveis, na sua maioria, com as do Bombeiro.

Oportunidade de crescimento para todos: a motivação é o combustível que alimenta os Bombeiros e os desafios que fazem parte de seu dia-a-dia. Para isto o CB precisa de dar sempre a oportunidade de crescimento aos seus operacionais. Antes de procurar um talento externo as vagas precisam de ser divulgadas internamente para dar oportunidade à “prata da casa”, desde que o perfil atenda aos requisitos solicitados para a vaga disponibilizada. Os pré-requisitos muitas vezes não são comunicados internamente de um modo claro. É importante que os pré-requisitos da(s) vaga(s) em questão sejam divulgados com clareza para não gerar frustrações e falsas ilusões.

Pessoas querem líderes e não chefes: Os Bombeiros seguem pessoas, não seguem máquinas ou robôs. Os operacionais precisam de ícones para se desenvolverem. Se os Bombeiros não tiverem um nível mínimo de admiração por seu líder, dificilmente irão segui-lo.

”Um bom chefe faz com que homens comuns façam coisas incomuns.”, Peter Drucker

Os Bombeiros precisam de um ambiente de trabalho estável e alegre: os operacionais precisam de desafios, porém também necessitam de um ambiente estável de trabalho.

Daniel Goleman relata sobre o nível de bom stress. Há um nível óptimo de stress em que as pessoas produzem muito, porém a partir de um determinado nível de stress as pessoas não conseguirão produzir resultados satisfatórios. As pessoas precisam de se sentir seguras e de ter liberdade para trabalhar. Muitos profissionais reclamam que os seus líderes são verdadeiros ditadores e autoritários e que não permitem o erro e geram ambiente hostil para os colaboradores com cobranças desnecessárias.

“As emoções são contagiosas. Todos sabemos disso por experiência. Depois de um bom café com um amigo, você sente-se bem. Quando encontra um empregado rude numa loja, sente-se mal.”

Visão sistémica: visão sistémica é ter a visão do todo, ou seja, ver todas as coisas que acontecem a sua volta. Isto faz o Bombeiro conhecer melhor o seu Corpo de Bombeiros, planear a sua carreira, e promover as melhorias e crescimento necessários na organização e na sua vida pessoal e profissional. O pensamento sistémico, que integra todos os compartimentos do saber e da prática, visa estimular o trabalho em equipa, a criatividade, a capacidade de encarar desafios e adaptar-se continuamente às mudanças.

O Corpo de Bombeiros deve preocupar-se em manter um equilíbrio entre prover perspectiva aos colaboradores, remuneração/reconhecimento adequados e um bom ambiente de trabalho. Estes são elementos fundamentais para garantir o desenvolvimento e assegurar a retenção de seus Bombeiros.

António Calinas

 

Sobre o autor

Sérgio Cipriano

Sérgio Cipriano

Natural de Gouveia e licenciado em Comunicação Multimédia pelo Instituto Politécnico da Guarda. Ingressou nos bombeiros com apenas 13 anos de idade e hoje ocupa o cargo de sub-chefe. É um dos fundadores da Associação Amigos BombeirosDistritoGuarda.com e diretor de informação do portal www.bombeiros.pt, orgão reconhecido pela Entidade Reguladora para a Comunicação Social.