“Papito siempre estaras en mi corazón” (Paizinho, estarás sempre no meu coração)

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1. Há dias em que não conseguimos responder a todas as solicitações que se nos apresentam, e ficamos furiosos! Há dias em que, com um estranho sentimento preso ao coração, saímos de casa para defender outras famílias e bens, deixando aquilo que é realmente nosso: os nossos pais, as nossas esposas, os nossos filhos, a nossa família, enfim, a nossa casa. Há dias em que voltamos cansados, com o corpo ferido, mas com um sorriso no rosto: a nossa missão cumpriu-se! Há dias em que não voltamos e o sorriso apaga-se dos rostos que connosco partilharam tantas e tantas desventurosas saídas do quartel. Há dias em que a nossa família, a nossa carne, a nossa verdadeira razão de viver, perde aquilo que tem de mais precioso. Há dias em que a vida deixa de fazer sentido para um grupo de infelizes que são o nosso sangue. Há dias em que nos perdemos na memória dos homens e restamos, nomes singulares, numa lápide que alguns irão esquecer, mas não os nossos amigos e familiares. Há dias em que quem cai não pode deixar de merecer o nosso respeitoso cumprimento, o verdadeiro cumprimento: lembrarem-se da família que fica!

2. Dedico esta espécie de crónica às famílias de bombeiros que perderam a vida até hoje. A todas aquelas que empurram a suaprópria vida com a tremenda dor que foram obrigadas a carregar para o resto da sua existência. Lembro-me das famílias destes homens e mulheres como me lembro da minha. Lembro-me das lágrimas da mãe da Viviana, do Bombarral, que abracei um dia e que não voltei a ver. Lembro-me da fotografia da Camila, filha do Júan Carlos, trazida pelo seu tio (ver imagem). E lembro-me que há horas em que as lágrimas tomam conta de nós e nos deixam absortos a pensar em como a indiferença é tão cruel.

3. E penso muito sobre a forma como tratamos todos aqueles que ficaram vulneráveis. E penso muito sobre os oportunistas que parecem chorar o Nilo inteiro quando um bombeiro morre e depois se esquecem dos rostos dos seus familiares. E penso em todos aqueles que dizem para as câmaras de televisão que os bombeiros são uns “filhos da !!!!”, ou que não aparecem em lado nenhum, ou que nem se vêem, ou… Enfim, penso naquelas pessoas que se esquecem que nós, homens e mulheres que combatemos um incêndio, somos de carne e osso, somos iguais a eles e que não temos o dom da ubiquidade. E penso sempre que, apesar de tudo, há quem pense em nós como neles, como homens e mulheres que querem voltar a abraçar a sua família depois de cada missão em que a deixam para trás. E penso…

Guarda, 29 de Agosto de 2012
Daniel António Neto Rocha

 

Sobre o autor

Sérgio Cipriano

Sérgio Cipriano

Natural de Gouveia e licenciado em Comunicação Multimédia pelo Instituto Politécnico da Guarda. Ingressou nos bombeiros com apenas 13 anos de idade e hoje ocupa o cargo de sub-chefe. É um dos fundadores da Associação Amigos BombeirosDistritoGuarda.com e diretor de informação do portal www.bombeiros.pt, orgão reconhecido pela Entidade Reguladora para a Comunicação Social.

  • Lamentavelmente Daniel, os anos passam e o tempo de antena é
    focado para os casos mais recentes, se bem que, esses também têm prazo de vida,
    porque o esquecimento (para alguns) é a melhor forma de combater os erros
    cometidos ao longo de vários anos…

  • Tens toda a razão, mas é nesse esquecimento que reside o problema de base: quem vem a seguir esquece e não aprende!