O Bombeiro “coitadinho”.

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Carlos_silvaEm Portugal, o verão é vivido mais intensamente nos meses de julho, agosto e setembro: dias de férias, altura da vinda dos emigrantes, dias de festas nas aldeias, dias de praia ou piscina, noites quentes e de diversão, etc.

Curiosamente, em igual período, a Autoridade Nacional de Proteção Civil decreta a fase “Charlie” do Dispositivo Especial de Combate a Incêndios Florestais, período em que a atividade dos Bombeiros, no nosso país, é mais mediática, altura em que muitos holofotes estão virados para os Bombeiros e Proteção Civil, momento em que a sua prestação é mais criticada, muitas das vezes, julgada e até posta em causa. Por outro lado, e parecendo um contrassenso, é também quando se elogia e valoriza mais o seu trabalho, correspondendo ainda à altura em que são acarinhados e ajudados, com uma maior frequência.

Enquanto operacional e com responsabilidades no setor, cada vez mais, defendo que é urgente Mudar. É fundamental que os Bombeiros de Portugal deixem, apenas na história da Associação ou em livros, de deter o rótulo de “coitadinhos”.

Se os Corpos de Bombeiros estão como estão é porque nós, Bombeiros, muitos dirigentes e pessoas com responsabilidades na área assim o quiseram e deixaram que esta imagem perdurasse/perpetuasse ao longo dos anos.
Se nos mais de 600 anos de existência de Bombeiros Voluntários em Portugal, os mesmos são apenas criticados e elogiados no verão, mais concretamente aquando do combate aos incêndios florestais, e em situações muito pontuais, ao longo do ano, nomeadamente em Teatros de Operações mais complexos, não será esta questão mais que suficiente para avaliar a importância e a pertinência de, uma vez por todas, ser avaliada a conjuntura dos Bombeiros Portugueses? E que tal vocacioná-los exclusivamente para aquilo que a sociedade os critica e elogia, isto é, na prestação do socorro, em vez de termos recursos humanos afetos a outros serviços que nada têm a ver com socorro e tão pouco com a génese do Bombeiro? Recursos imprescindíveis e que bastante falta fazem para constituir equipas de intervenção permanente, durante todo o ano, indispensáveis para a prestação de um socorro mais célere, mais “musculado”, mais profissional, mais treinado e mais experiente!

É tempo de acabar com o Bombeiro “coitadinho” e de elevar o nome de “Senhor Bombeiro” na nossa sociedade! Não é apropriado, nem admissível, nos dias de hoje, um Corpo de Bombeiros viver de esmolas, nem estar pendente do voluntariado para a prestação da primeira intervenção no socorro.

Estamos num País que paga para ter Governantes, para ter Polícia, para ter outras Forças de Segurança no combate aos incêndios florestais, para ter uma Força Especial de Bombeiros, paga para ter Sapadores Florestais, todo o ano, paga para ter uma estrutura operacional de Proteção Civil, paga para haver desporto, para haver cultura, para possuir um Serviço Nacional de Saúde, entre muitas outras coisas, todavia não paga para garantir a segurança de um bom socorro primário em Portugal, o que é inadmissível! Apenas atribui subsídios, através de uma lei de financiamento, que não garante o mínimo, nem a qualidade necessária à realidade de cada Corpo de Bombeiros!

Será descabido, com base na avaliação da Área de Atuação Própria (AAP) de cada Corpo de Bombeiros e nos Planos Operacionais Municipais, chegar a uma lei de financiamento dos Corpos de Bombeiros, justa e adequada, garantindo um socorro inicial de qualidade e musculado, com a capacidade de, à semelhança do que se faz no verão, com as triangulações de combate a incêndios florestais, podermos triangular para incêndios urbanos, para acidentes ou para que cenário for? Se assim fosse, saberíamos que podíamos contar com os meios de todos os Corpos de Bombeiros, a nível Nacional, 365 dias por ano.

É claro que essa situação não seria sinónimo de terminar com o voluntariado, uma vez que a sua existência é essencial, porém não se pode estar pendente dele para o socorro de primeira intervenção e até mesmo de segunda intervenção.

De relembrar que a primeira intervenção é da responsabilidade do Corpo de Bombeiros da AAP, a segunda intervenção é feita através da triangulação entre os Corpos de Bombeiros da zona e, por fim, é que se deve recorrer ao voluntariado. Em situações de alertas decretados, na eventual necessidade de reforçar alguns quartéis, aí sim, recorrer-se-ia ao voluntariado. E, nessa situação, este deveria ser também condignamente motivado e gratificado, por forma a podermos ser mais exigentes com os elementos que o constituem.

Haverá Corpos de Bombeiros que sairiam prejudicados com isto? Garantidamente que não! Todos os Corpos de Bombeiros e, principalmente o socorro em Portugal, sairia a ganhar e muito! Passaríamos a ter um País mais homogéneo no que respeita à capacidade e qualidade de resposta, com ponderação e racionalização de meios e recursos ajustados à realidade de cada AAP, com a possibilidade de a mesma poder ser movimentada pelo País, à semelhança do que acontece no verão com as equipas afetas ao DECIF.

Existem Associações que, atualmente, têm um património brutal, conseguindo dar condições e garantir qualidade aos seus Bombeiros, o que é de louvar! Existem Associações que, acima de tudo, conseguem manter uma prontidão desejável e ajustada aos dias de hoje, no entanto, e infelizmente, estamos a falar de uma minoria. Nem todas conseguem manter tais níveis de qualidade e por razões tão diversas, como: a zona geográfica em estão inseridas, pela sensibilidade, pro-atividade e disponibilidade dos seus Corpos Gerentes, pela disponibilidade do voluntariado, entre outros fatores.

Com esta medida, as Associações que detêm um bom património em nada sairiam prejudicadas, muito pelo contrário, e as que infelizmente não têm essas condições, passariam a estar condignamente munidas e preparadas para a prestação do socorro, tal como as anteriores.

Volto a repetir e a reforçar que basta de apelidarmos o Bombeiro de “coitadinho”: “coitadinho” por não ter condições para garantir a prestação de um socorro de qualidade, “coitadinho” porque não tem EPI, não tem veículos, não tem alimentação, não tem formação, nem treino!

É certo que muitas das situações enumeradas não as têm, mas também não as possuem, alguns, porque não se dão ao trabalho e não se esforçam para as ter, uma vez que uma grande parte é comparticipada pelo estado! Dá trabalho, é certo, contudo algumas são asseguradas, nomeadamente a alimentação e os veículos.

É tempo de canalizar verbas para quem, há mais de 600 anos, trabalha para garantir o socorro de toda a população de Portugal e de quem nos visita!
Há que fazer algo para que os bombeiros possam ser eficazes, eficientes e para conseguirem prestar um socorro de qualidade, com dignidade! A diferença entre a vida e a morte, a recuperação e a qualidade de vida de quem necessita de socorro poderá depender disso mesmo!

Carlos Silva
Comandante do Corpo de Bombeiros de Óbidos

 

Sobre o autor

Sérgio Cipriano

Sérgio Cipriano

Natural de Gouveia e licenciado em Comunicação Multimédia pelo Instituto Politécnico da Guarda. Ingressou nos bombeiros com apenas 13 anos de idade e hoje ocupa o cargo de sub-chefe. É um dos fundadores da Associação Amigos BombeirosDistritoGuarda.com e diretor de informação do portal www.bombeiros.pt, orgão reconhecido pela Entidade Reguladora para a Comunicação Social.

  • Hugo Simoes

    Só uma pequena correção… Os Bombeiros Voluntários em Portugal tem apenas 148anos (faz dia 18OUT). Quem tem mais de 600anos, é o RSB, com toda a sua evolução… Bombeiros municipaes, batalhão etc!

  • José Júlio Costa-Pereira

    Este artigo está consistente por lógica e raciocínio fruto de experiência que convém registar.
    Não obstante,jamais ter sido bombeiro,trabalhei como agente de protecção civil,tal como eles e em regime de voluntariado benévolo e em alguns trabalhos escritos publicados defendi esta tese,ora posta por Sergio Cipriano.