Há quem pense e deseje

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Encarar a avaliação e a análise das actividades multifacetadas dos bombeiros, como se de um mero processo de fabrico rotinado de “fast-food” se tratasse, é um clamoroso erro a que, porém, alguns querem reduzi-los.
É disso prova a forma como alguns entidades, por exemplo, justificam o atraso e encaram só agora a definição de um modelo de financiamento dos bombeiros, a sua organização e eventual fusão e partilha cega, o modo de prestação de serviços ao Estado, seja ao Ministério da Saúde ou outros.
Um qualquer hambúrguer, a tradicional dose de batatas fritas e a habitual bebida com gelo e rodela de limão no copo, tudo sujeito a um apertado controlo, tudo igual ao que saiu no minuto anterior e vai sair no minuto seguinte, eis um modelo sem surpresas, com garantia de resultados.

Dará jeito a alguns encarar a nossa organização como se desse género fosse. Era simples e prático, fácil de controlar, e até domesticar, mas irrealista porque, na verdade, não é assim e está precisamente nos antípodas.
Cada intervenção dos bombeiros, como sabemos, mesmo que apresentando semelhanças e sujeita sempre a protocolos de actuação, contudo, é sempre diferente da outra. E, por isso, com todas as características que acabam por diferenciar intervenções aparentemente semelhantes, as competências dos bombeiros estão sempre a ser escrutinadas, a ser postas à prova.

Caso os bombeiros interviessem ao estilo “fast-food”, com as mesmas soluções, sem criatividade e riscos, porventura não correriam perigo mas a eficiência e a eficácia da sua actuação ficariam muito aquém do que todos desejariam, em especial, os próprios.
E nem o exemplo do trabalho de equipa desenvolvido na cadeia do “fast-food” pode ter qualquer semelhança com o trabalho conjunto desenvolvido pelos bombeiros. No primeiro caso, a equipa impessoal apenas garante a normalidade e rotina de procedimentos. No segundo caso, muitíssimo mais rico, o trabalho de equipa demonstra a complementaridade de funções em cenário crítico, a cumplicidade dos riscos e das decisões difíceis, tudo isso faz de uma situação aparentemente normal e estereotipada um caso único e diferente.

Todas as lógicas com que hoje se encaram os bombeiros não têm em conta tudo isso, essa riqueza imensa, essa complexidade de interacção cujos protocolos ditam como fazer mas que as circunstâncias, a realidade, vão alterando e exigindo mais, a cada momento e em termos inesperados, novas respostas e eventuais custos incontornáveis que isso também acarreta.
Por isso, calcular os custos dos bombeiros como um somatório fixo comparável ao hambúrguer, batatas fritas e refrigerante é, ou economicismo de vistas curtas, ou má fé na abordagem da questão. O novo modelo de financiamento dos bombeiros deverá ter tudo isso em conta. É possível estabelecer valores de base para as suas intervenções tipificadas mas torna-se impossível ficar espartilhado por isso. A realidade nem sempre é encarada com facilidade, nomeadamente pelas entidades de cujo suporte os bombeiros dependem. Mas fazê-lo sem o rigor que a própria excepcionalidade prevê é atentatório, em especial para a vida daqueles que os bombeiros querem continuar a defender.

Sobre o autor

Sérgio Cipriano

Sérgio Cipriano

Natural de Gouveia e licenciado em Comunicação Multimédia pelo Instituto Politécnico da Guarda. Ingressou nos bombeiros com apenas 13 anos de idade e hoje ocupa o cargo de sub-chefe. É um dos fundadores da Associação Amigos BombeirosDistritoGuarda.com e diretor de informação do portal www.bombeiros.pt, orgão reconhecido pela Entidade Reguladora para a Comunicação Social.