Fado, Futebol, Fátima,… Florestas e Finanças.

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luis_andrade_cronicaÉ comum a identificação de Portugal, especialmente a três pilares, no período do Estado Novo, curiosamente todos começados pela letra F: Fado, Futebol e Fátima. Apesar desta expressão ser atualmente mais usada quando se quer referir a pouca participação da população portuguesa, darei a esta expressão um outro maior significado. Aos 3 F’s resolvi associar outros 2 F’s: Floresta e Finanças.

Perante este enquadramento, farei uma breve análise a alguns temas mais proferidos nos meios de comunicação social, aquando se fala de Portugal.

  1. Comecemos pelo Fado:

Expressão musical exclusivamente portuguesa, teve uma origem ainda não completamente esclarecida, embora hoje se tenha alguma certeza que esteja relacionada com o regresso da corte de D. João VI a Lisboa, proveniente do Brasil. Desta melange de cultura africana, brasileira e portuguesa nasceu uma música original que começou inicialmente a ser cantada em casas “mal-afamadas” da capital. Teve na “Severa” a sua primeira grande intérprete, e em Amália o seu apogeu. Não obstante, continuou a ser vista como uma música boémia, de gente pouco recomendável e terrivelmente desprezada pela intelectualidade. Recordo uma entrevista do fadista João Braga, em que relata a forma como disse a seu pai que queria ser fadista. Conta-nos Braga, que o pai foi consultar o dicionário e, em voz alta e bom vernáculo, leu o significado do adjectivo fadista que encontrou no dicionário: chulo, proxeneta, meretriz…”, citando R. Romão (2008).

Muitos entendem que estas canções conduzem a um melancolismo abúlico, preferindo outros estilos mais ritmados. Amália foi a primeira artista que se associou ao Fado. No entanto, com sua reabilitação já em pleno século XXI, veio uma nova geração de fadistas, aparecendo nomes como Mariza, Carminho, Ana Moura, entre outros. Foi elevado à categoria de Património Oral e Imaterial da Humanidade em 2011.

Mas, sem menosprezar este estilo único e magnifico há que não esquecer outros estilos musicais, como vira do Minho, o canto Alentejano, o bailinho da Madeira, que têm vindo a ser valorizados, por este Portugal fora e não só.

Outros interesses artísticos têm também surgido, como a pintura, na qual em exemplo mais recente se revela a adquisição da obra “Adoração dos Magos” de Domingos Sequeira, para campanha do Museu Nacional de Arte Antiga, na qual muitos portugueses contribuíram com donativos.

Em outras áreas, Saramago em 1998, tornou-se o primeiro escritor de língua portuguesa, a ganhar um Nobel da Literatura, não esquecendo também os contributos de escritores do passado, como Camões, Bocage, Eça de Queirós, Vergílio Ferreira, entre muitos outros.

Também na arquitetura, desenho, escultura, dança, cinema entre outras áreas se têm vindo a revelar artistas bastante criativos. São estes artistas, que de certa forma na sua fragilidade e delicadeza contribuem para uma sociedade mais democrata.

Seja o fado, ou outro tipo de arte, estes são extremamente importantes para as pessoas porque são capazes de conectá-las ao seu íntimo, e por isso claro, com evidência nos meios de comunicação social, numa valorização nacional.

  1. Futebol:

Este começou por se evidenciar em 1966, no Mundial de Futebol de Inglaterra. Foram os “magriços”, nomes como: Eusébio, Mário Coluna, José Augusto, José Torres e António Simões vieram provar que os portugueses se podiam bater de igual para igual com outros países.

Em 2004, no campeonato europeu, em que Portugal era anfitrião a seleção das quinas ficou num 2º lugar. Destacou-se um 4º lugar no mundial de 2006. Mas, só em 2016 que Portugal se sagrou campeão europeu de futebol.

Mas, há também outras modalidades, como o atletismo, com o maior número de medalhas olímpicas conquistadas. A vela, escalada, judo, esgrima, canoagem, tiro, triatlo, ciclismo, equitação, entre outras modalidades, também se vão destacando a nível internacional.

Para além destas modalidades, há que não esquecer o hóquei em patins, mais um ano, como campeões da Europa. Há que dar os parabéns a todos os que têm vindo a representar o nome de Portugal.

Tanto no futebol, como nos outros desportos, estes constituem-se como elementos proeminentes na formação da identidade nacional, tendo a particularidade de reunir um grande número de pessoas. Estes com destaque muito forte nos meios de comunicação social fazem parte do convívio humano e social das pessoas, quer elas queiram, quer não.

  1. Fátima:

Com o reconhecimento das aparições por parte da cúria romana, tornou-se no símbolo máximo de fé em Portugal. O seu alcance foi muito para além do âmbito nacional.

Mas é importante reconhecer, que ao longo do tempo, apesar da religião ter sido usada como motivo das guerras, também havia muitas outras razões, dentro delas, terras, dinheiro, economia, poder político, recursos naturais, entre outras.

Em Portugal, nos dias de hoje, a fé mantém-se sem grandes radicalismos. Num clima atual mais tenso, que se vive a nível mundial, penso que se pode enquadrar a fórmula do célebre Bispo de Viseu, D. Alves Martins, “a religião quer-se como o sal na comida, nem de mais nem de menos“.

Mas sendo a religião um tema que deixa poucos indiferentes, os meios de comunicação social tentam divulgar eventos, como também promover o esclarecimento da opinião pública, quer seja movido pela fé, quer pela curiosidade dos fenómenos religiosos.

  1. Floresta:

Chega o verão, chegam os incêndios. Com a chegada do calor, esta situação é igual à de outros anos. Nada muda. De forma heroica são os bombeiros que geralmente fazem a defesa deste património.

Incêndios que vão surgindo pelas nossas florestas, por negligência (desconhecimento ou por falta de cuidado), em ações criminosas (pelas mais diversas razões), como também de forma patológica, em que há alguém que alimenta o gosto pelo fogo (apesar de ser pouco frequente).

Isto, já não é um problema que deve ser só combatido pelos reforços e melhoria nos corpos de bombeiros, pelo aumento da vigilância das nossas florestas, pela realização de ações de sensibilização e formação, é algo que tem que ser mudado culturalmente, pela educação em todos nós.

A floresta portuguesa é diversificada e é uma das nossas maiores riquezas, olhada pelo turismo e utilizada pela indústria. Esta desempenha um grande contributo no controlo das alterações climáticas, mas também na melhoria da qualidade do ar dos nossos espaços.

Por isso, os incêndios devem ser um problema de todos, mesmo daqueles que não querem saber. Não é só dos bombeiros, dos técnicos de Proteção Civil, mas de todos os Portugueses. Isto, é algo que parece ainda não ser do conhecimento de todos.

É com o aparecimento destes, que se tornam nos temas noticiosos mais difundidos. Os meios de comunicação social vêm nesta situação uma forma de obter audiências, mesmo desvalorizando o seu papel preventivo. O certo é que estas notícias também podem influenciar a replicação de tais ações.

  1. Finanças:

A Gestão do dinheiro. Caso haja uma gestão inapropriada, seja por desconhecimento técnico de quem gere, ou por gestão intencionalmente danosa por interesses no privado, comprometerá de forma direta a construção do futuro do nosso país.

Mas, se não quisermos analisar esta situação do ponto de vista jurídico, podemos enquadrar esta situação do ponto de vista ético, onde se torna claro, o conflito de interesses.

São os meios de comunicação social que às vezes acabam por revelar esta informação, enumerando-se alguns exemplos: os papéis do panamá (na qual são escondidas fortunas através de offshores, bancos e empresas fictícias, onde são feitas referência a portugueses), a situação de más decisões na gestão de bancos portugueses, as dívidas que se criam em instituições públicas (os tais buracos-financeiros), entre muitas outras situações.

Colocando esta análise de forma apartidária, resta também saber, quanto já desembolsaram os portugueses, para os “poderosos” manterem as suas “mordomias”. Enquanto isso, outros fazem grandes esforços para sobreviver. Torna-se visível, intuições piramidalmente invertidas e mais diferenças de classes, entre ricos e pobres.

Fica a tentativa dos meios de comunicação social de identificar algumas incoerências económico-financeira. Mas torna-se difícil, uma vez que estas situações acabam por atingir o poder politico e este tenta sempre limitar a actuação de quem investiga e procura divulgar.

Por isso é inegável que

… os meios de comunicação social tem grande influência social na configuração de padrões, apresentação de modelos e proposta de valores.

Dos temas mais proferidos nos meios de comunicação social dei destaquei a estes. Mas, é o Fado, Futebol, Fátima, que aparecem em nota positiva, com as suas envolvências (na Cultura, Desporto e Fé), por tudo aquilo que foi dito, face aos seus valores e crenças.

No entanto, coloca-se a Floresta e Finanças em nota negativa. Floresta porque está camuflada pelo Fogo, e ano após ano, esta situação mantém-se, sem haver respostas, nem procura de soluções. Finanças, pela Falta de ética ou incapacidade de desempenharem funções, como de se criarem soluções para tais problemas, restando apenas que a comunicação social tente assumir o seu papel de forma independente, sem pressões ou influências exteriores, sem criar uma imagem distorcida na opinião pública, e mantendo todos os princípios de uma democracia.

Lutar contra ventos e marés, é por vezes difícil. Mas, claro que existem outros, que se preocupam e tudo fazem, para contrariar esta situação.

Olhando para os temas abordados, torna-se difícil relacioná-los, mas há que perceber que deve haver algo em comum, uma vez que ambos revelam bastante interesse dos meios de comunicação social, e isso demonstra-se também nas audiências. Por isso, há que olhar para as pessoas, compreender os seus sentimentos, motivações, valores, crenças, entre outros aspectos, e aí poderemos compreender o que estes têm em comum. Só assim se pode colocar uma mudança em relação às situações negativas.

Deixarei algumas perguntas, para que se possa reflectir.

Será que progredimos em tecnologia e ciência e regredimos nos valores? Estarão uns a lutar por Portugal e outros a destrui-lo? Para além dos meios de comunicação social, onde está o contributo de cada um de nós, nós digo todos, bombeiros, e não só, para potenciar esta mudança social?

Um elemento que pode ampliar o potencial de efectividade a esta melhoria é a existência de uma estrutura voltada à participação social. Os reflexos gerados pelo estímulo, a um modelo de sociedade com maior participação social recaem não apenas na construção de uma sociedade mais justa, mas também numa sociedade com maior equidade.

Dando maior destaque aos incêndios, é certo que cada pessoa tende a posicionar-se de forma diferente, mas também de forma colaborativa, se sentir envolvida. Pois, é na comunidade que existe viabilidade de se constituírem parcerias mais fortes, não só no combate ao início dos focos de incêndios, como também na detecção e na prevenção, e por isso à que olhar para as pessoas.

Todas as pessoas poderão contribuir para o mesmo objectivo, a de manutenção da Floresta, mas por diferentes razões. Seja por situações de natureza mais interna, associadas ao seu íntimo (como no Fado), quer por uma identificação nacional (como no Futebol), seja pelas suas crenças (como Fátima), como pela necessidade de estabilidade/segurança (como nas Finanças), dentro de muitos outras que poderiam-se enunciar. Por isso, há que compreender os factores que influenciam os sentimentos e comportamentos de cada pessoa.

A comunicação social acaba por ter um papel fundamental na opinião, uma vez que sem a presença de informação, esta não era formulada.

Apesar das relações entre a educação e a comunicação social não serem as mais harmónicas, isto é um assunto demasiado sério para ser deixado apenas aos especialistas. A comunicação social deverá também ser capaz de contribuir para que o homem se torne um “ser” mais participante na sociedade em que vive, abrindo novos horizontes para o processo educativo.

Por isso, há que ter uma visão crítica, mas construtiva para que em conjunto, se possa acrescentar mais um F e tornar Portugal mais Forte, preservando-se os aspetos positivos, e recuperando este bem comum, que é a Floresta, bem como por outro lado, a estabilidade Financeira.

por Luís Miguel Afonso Andrade

 

QUE A MENSAGEM PASSE…

Sobre o autor

Sérgio Cipriano

Sérgio Cipriano

Natural de Gouveia e licenciado em Comunicação Multimédia pelo Instituto Politécnico da Guarda. Ingressou nos bombeiros com apenas 13 anos de idade e hoje ocupa o cargo de sub-chefe. É um dos fundadores da Associação Amigos BombeirosDistritoGuarda.com e diretor de informação do portal www.bombeiros.pt, orgão reconhecido pela Entidade Reguladora para a Comunicação Social.