Exigir sem dar

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Rama da Silva

Rama da Silva

É uma atitude recorrente por parte do Estado. Os bombeiros, ao longo dos tempos, sedentos de melhorar e desenvolver novas técnicas e ferramentas para o socorro, têm vindo a abraçar diferentes especialidades. O Estado só mais tarde, e quando o faz, os acompanha.

Trata-se da vontade de adequar a prestação do socorro, sejam os conhecimentos e os meios, a cada vez melhores condições, mais eficientes e mais eficazes.

O mundo tem evoluído de forma acelerada com novos materiais, novas estruturas, novos hábitos de vida, novas práticas de lazer. E, os bombeiros, atentos a todos esses fenómenos, de forma muito proactiva, abalançam-se a novas especialidades, novas tecnologias para que o socorro seja cada vez melhor e mais rápido.

Especialidades, como o salvamento e desencarceramento, o grande ângulo, o mergulho, as equipas cinotécnicas, o socorro em estruturas colapsadas, o socorro pré-hospitalar sofreram nos últimos anos mudanças e evoluções fantásticas. Mudanças que permitiram aos bombeiros dar enormes saltos na execução do socorro. Fizeram-no por si próprios durante muito tempo e nalguns casos assim continuam. E com os investimentos feitos às suas costas, com honrosas excepções de benfeitores e autarquias.

Como traço comum, em todas estas especialidades a capacidade do Estado em apoiar tem sido sempre lenta, arrastada ou até inexistente.

Mas, em sentido contrário, ou seja, conhecedor da existência dos meios e das novas competências nos bombeiros, o Estado é rápido e insistente quando solicita a intervenção dos bombeiros para actuarem com as novas valências.

Passaram-se anos, muitos anos, até que o Estado assumisse o salvamento e desencarceramento como deve ser, inclusive no apoio à aquisição de equipamentos para tal. Na Associação de que faço parte foram necessários 30 anos para que tal acontecesse.

No mergulho passa-se ainda o mesmo. No grande ângulo, evoluiu-se mas ainda muito longe dos mínimos. No mergulho, ainda pior, com frequentes pedidos para a intervenção dos mergulhadores dos bombeiros sem que contribuam para a sua criação e manutenção. E o domínio das estruturas colapsadas orienta-se pelo mesmo diapasão.

No caso do pré-hospitalar, o Estado até demitiu-se da antiga obrigação de entregar ambulâncias de socorro às associações e corpos de bombeiros que não fossem posto de emergência do INEM (PEM) e, inclusive, de equipamento necessário para qualificar a prestação de socorro nesse domínio.

Sobre as equipas cinotécnicas dos bombeiros o problema é o mesmo. São desconhecidas do Estado até que ele precise delas. Aí, o Estado não tem rebuço em pedir que intervenham, mesmo que, também no caso, não tenha contribuído em nada para que existam.

É uma atitude recorrente que não pode ser sempre justificada apenas pela falta de meios.

As associações e corpos de bombeiros têm feito enormes investimentos para a obtenção de conhecimentos e ferramentas e os resultados têm estado à vista.

Talvez um dia o Estado os queira acompanhar. Cá estaremos para o reconhecer. Até lá, deixem de exigir sem dar.

Rui Rama da Silva

Sobre o autor

Sérgio Cipriano

Sérgio Cipriano

Natural de Gouveia e licenciado em Comunicação Multimédia pelo Instituto Politécnico da Guarda. Ingressou nos bombeiros com apenas 13 anos de idade e hoje ocupa o cargo de sub-chefe. É um dos fundadores da Associação Amigos BombeirosDistritoGuarda.com e diretor de informação do portal www.bombeiros.pt, orgão reconhecido pela Entidade Reguladora para a Comunicação Social.