A história de uma viatura

1

rama-da-silva1-cronicaTodas as viaturas de bombeiros, em especial as mais antigas, têm sempre histórias associadas, seja a forma como chegaram à respectiva associação, o salto tecnológico e operacional que representaram, o que fizeram ao longo da sua vida, por onde andaram, também os melhoramentos e alterações a que foram sendo sujeitas e, no final de vida útil, como e quem chamou a si a tarefa sentimental de proceder ao seu restauro.

Cada um destes itens facilmente seria possível desdobrar noutros tantos episódios da história da associação e do corpo de bombeiros.

As viaturas são ferramentas e apoios essenciais ao socorro, e ao longo da sua existência, e da vida de sucessivas gerações de bombeiros, acabam por marcar todos os que com elas trabalharam. Não faltam histórias vividas com elas nos mais variados cenários e teatros de operações. Fala-se delas como se fala da farda ou do equipamento de proteção que se enverga.

Não falo apenas de simples máquinas mas de algo mais. Algo que nalgum momento ficou associado à vida de cada um, pelas angústias, pelos riscos, pelas alegrias vividas em conjunto e com muita adrenalina à mistura.

Como se viaturas e bombeiros se pudessem fundir num só e actuar em conjunto com alma, denodo e coragem. Daí, depois de cumprido o tempo de vida útil das viaturas, serem lógicos e plenamente justificados os cuidados que a seguir são dispensados à sua preservação.

Abrir um cortejo motorizado ou simplesmente integrar-se nele no meio das máquinas dos dias de hoje é uma honra concedida naturalmente às viaturas antigas. Fazem parte da nossa memória, até do nosso registo individual. Esquecê-las é esquecermo-nos de parte de nós.

Porque se a viatura se perde, é vencida pelo fogo ou abatida é sempre um bocadinho de cada um dos bombeiros que também morre com ela. E, quando por alguma dessas razões uma viatura deixa o serviço operacional importa saber fazê-lo, ou seja, proceder à sua substituição com a dignidade e o respeito que merece, por tudo o que fez, tudo o que nos ensinou, por tudo de que nos safou, por tudo o que fez para fazer parte da nossa história.

Há uma viatura dessas na nossa Associação. Um veículo florestal com mais de 30 anos de serviço apelidado carinhosamente pelas várias gerações por “Salta Quintais”. Correu as sete partidas do país desde a sua chegada a Cascais. Integrou as primeiras colunas formadas nos anos 80 para o combate a incêndios florestais noutras regiões do país. Inclusive, quando o transporte da coluna era feito por caminho-de-ferro e não por estrada.

Correu o país solidariamente todos os verões e agora está na altura de a substituir, como disse, com respeito e dignidade.

Foi oferecida pela Câmara de Cascais em 1983 na sequência das cheias ocorridas no concelho e das perdas em viaturas e equipamentos então registadas. Desde então, nunca mais parou. E foi sujeita a sucessivos melhoramentos, a cabina dupla, o “santo antónio”, novos carretéis, mangueiras, agulhetas e tantas outras coisas. Mas, passado isso, contudo, não perdeu o cunho, a personalidade com que durante anos se afirmou. Era a melhor, a mais robusta, o “Salta Quintais”.

Chegada a hora do seu afastamento, e decidido em consonância com o corpo de bombeiros que passará a fazer parte do nosso acervo museológico, constatamos que a ANPC entendeu não dar parecer favorável à candidatura ao POSEUR para a sua substituição.

Serão razões burocráticas que levam a esse parecer negativo. Não serão as mesmas que ditaram comportamento diverso do SNB, SNBP ou ANPC, como aconteceu anos a fio no verão, ao solicitarem a intervenção dela sempre que foi considerada necessária no terreno para o combate.

Como já não serve, pelos vistos, alguém pretende que seja simplesmente votada ao esquecimento. No fundo, trata-se de desconsiderar a sua saída e a entrada de outra que possa continuar o seu trabalho. Os heróis e as suas viaturas não merecem isso.

Rui Rama da Silva

 

Sobre o autor

Sérgio Cipriano

Sérgio Cipriano

Natural de Gouveia e licenciado em Comunicação Multimédia pelo Instituto Politécnico da Guarda. Ingressou nos bombeiros com apenas 13 anos de idade e hoje ocupa o cargo de sub-chefe. É um dos fundadores da Associação Amigos BombeirosDistritoGuarda.com e diretor de informação do portal www.bombeiros.pt, orgão reconhecido pela Entidade Reguladora para a Comunicação Social.

  • carsol

    O mundo dos Bombeiros, nomeadamente no que respeita aos equipamentos essenciais para as suas fumções, é fantástico. No Distrito de Santarém, no inicio do Verão, “Rede Regional” de 06.07.16, foi anunciado que a Câmara de Santarém iria adquirir de entre outros meios, para os seus Bombeiros Municipais, um Veículo Florestal de Combate a Incêndios (VFCI), com matrícula de 1997, que irá substituir outro já abatido ao efetivo, que era do ano de 1982. Por outro lado, também outra Câmara Municipal do mesmo Distrito mantém ao serviço nos seus Bombeiros Municipais uma VUCI de Novembro de 1981 e uma VFCI também de 1981 onde nesta última, recentemente, foram gastos cerca de 50.000 Euros, desconhecendo-se se comparticipados ou não pela Autoridade. Este mundo é bastante diverso.